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Sabe-se que a "Poesia Lírica", apareceu na Grécia através das obras primas atribuídas a Homero, "Ilíada" e "Odisséia" que assumiram a forma escrita no século VI AC. Embora via de regra, tudo terminasse com um final feliz, o lirismo não existia na acepção do que entendemos hoje em dia por "lírico". O trágico sempre predominava nos temas helênicos. O fato que caracterizava a apresentação, é que ela era recitada, acompanhada por uma lira como forma de memorizar o texto.
Não havia exaltação de sentimentos pessoais, através de uma paixão cheia de sensações e de vibração. Muito pelo contrário.
"É da natureza complexa do trágico o fato de que, quanto maior a proximidade do objeto, tanto menor é a possibilidade de abarca-lo
numa definição."
Albin
Leaky[1]
O que marcou o fim da Antiguidade, no ano de 476, foi a invasão dos povos ditos bárbaros germânicos, ocupando os espaços romantizados. Na Gália ao norte, estabeleceram-se os "Francos Sálicos" e ao sul os "Francos Ripuáricos". O ordenamento jurídico dessas sociedades era diferente, embora tivessem a mesma raiz genética. Enquanto os Sálicos admitiam que a família de um cidadão morto em duelo, recebesse uma indenização da família do que tinha causado o dano e criava um estranho sistema de pagamento de dívidas, os Ripuáricos tinham uma idéia bastante clara sobre as relações de trabalho.
Haviam no entanto pontos em comum entre eles, principalmente no que diz respeito às relações de gênero. A mulher dentro da sociedade dos Francos, era respeitada e tinha direito a hereditariedade. Como em todos os povos germânicos, as mulheres poderiam herdar propriedades.
Nessas sociedades, por exemplo, os reféns oferecidos ao inimigo eram os sobrinhos do sexo masculino, filhos da irmã, por serem considerados mais puros em aspectos de consangüinidade do que os próprios filhos dados em garantia. No universo mitológico dos Francos podemos encontrar várias deusas como,
Bélisama - Deusa da Luz, do Calor e da Fertilidade, Bellona, a Deusa da Guerra, Brigitte - Deusa dos Bardos e dos Poetas (Irlanda), Epona - Deusa da Viagem que foi associada em Roma à Deusa Eqüestre, Nantusuelta - Deusa dos Vales e Córregos d'Água, etc.

Brigitte
ou Birgit - Deusa dos Bardos e dos Poetas.
Foi somente no Natal de 800 quando Carlos Magno (748-814), Rei dos Francos, foi coroado pelo Papa Leão III em Roma, com o título de Imperador do Sacro Império Romano, que se unificou a Europa sob a égide da Igreja Católica. Os sucessores de Carlos Magno dividiram o
Regnum Francorum em três partes entre as quais a Aquitânia, que daria origem à França e estabeleceram o princípio da hereditariedade masculina no trono dos Francos.
Todos os governantes na França desde então, até o Imperador
Napoleão, foram do sexo masculino e empunharam a espada de
Carlos Magno.
Todas a outras tribos germânicas, mantiveram o direito a
hereditariedade feminina. Recentemente, no dia 26 de outubro de
2001, nascia a Princesa
Elisabeth Thérèse Marie Hélène dos Belgas, enquanto
que no outro lado do Canal da Mancha, outra
Elizabeth, dos Anglo-Saxões completaria o jubileu de
ouro de sua ascensão ao trono da Inglaterra no ano
seguinte.
A região norte do que seria a França atual chamava-se Languedoil, que era a maneira como se pronunciava a palavra
oil, como uma corruptela da palavra oui (sim), herança de uma presença mais forte do Reino dos Francos Sálicos e seu sotaque germanizado. No sul existia a
Languedoc, que significaria literalmente "Língua (langue) Documentada (doc, abreviado)".
A língua germanizada dos Francos além de sofrer a influência do latim vulgar (documentável), também teve a influência do sotaque catalão, com raízes visigóticas.

Algumas
Línguas e Dialetos falados na França.
No Languedoc existia por volta do século XIII, o Reino dos Cátaros, que se confundia com a seita dos Cátaros
(Cátaro, do grego Katharos, que significa "Puro"), por serem seus habitantes maciçamente adeptos do que mais tarde se chamou de "Catarismo". Supõe-se que suas crenças tiveram origem nos
Bugomils, que habitavam a região da atual Bulgária.
Mais cultos que os habitantes do norte da Gália, por terem mais proximidade com os recursos da língua escrita, e ao mesmo tempo em que se sentiam isolados nos altiplanos rochosos, e por isso mesmo poderiam atuar como observadores críticos dos hábitos da Igreja Católica na virada do século XI.
A doutrina dos Cátaros baseava-se, entre outras práticas, em um dualismo que afirmava a existência de dois princípios: o do "Bem", criador do mundo espiritual e o do "Mal", criador do mundo material. Estando voltados para o "mundo espiritual", procuravam enaltecer as relações com a natureza e a harmonia e o amor entre os seres humanos.
A idéia do amor cortesão apareceu primeiro nesta região do Reino dos Cátaros. Supõem-se que o amor e as relações com o sexo feminino cresceram espontaneamente também para fora da região nos séculos XI e XII.
Pela primeira vez se escreveu extensivamente sobre o amor. A
divulgação mais acentuada de comunicação através da língua
escrita, aconteceria nesta época da história. O amor
cortesão, o amor delicado, o amor adúltero, o amor cantado dos
trovadores, se encaminhava lentamente no sentido de se afirmar
como um estilo histórico e lingüístico. Os trovadores eram
pessoas que escreviam ou decoravam histórias sobre amores
arrebatadores e inacessíveis em relação às damas. Era o
deslocamento poético da tragédia grega para o amor quase
impossível ou mesmo inacessível. Finalmente na história da
civilização ocidental cristã, as damas foram elevadas ao
nível de compreensão dos homens. Este fato foi o legado
cultural mais importante dos séculos XII e XIII.
Os efeitos desse amor não foram puramente físicos ou emocionais, preparando o homem no sentido lírico, de que agora seria interpretado com exaltação sentimental. De fato, os Cátaros substituíram a adoração da "Sempre Virgem Maria", por damas de sua sociedade. Além das raízes culturais do Francos, existia agora os desmandos do Igreja Católica com o luxo e a luxuria entre os seus dirigentes. Para os Cátaros seria impossível acreditar nos dogmas dessa Igreja que pregava pureza e praticava o contrário.
Revoltados pela opulência, luxúria e poder da Igreja, os Cátaros acreditavam que passariam para o "Céu" através da renuncia dos prazeres mundanos do poder, se pudessem viver uma vida acética, de modo a se tornar
Parfait (Perfeito).
A expressão "Sempre Virgem Maria" que foi definida no 2o Concílio de Constantinopla em 553, deveria ser entendida que Maria era virgem antes da concepção, durante a gestação e após o nascimento de Jesus. Essa doutrina seria mais tarde confirmada pelo Concílio de Latrão em 1215,
durante a Cruzada contra os Cátaros (1209 - 1229).
No campo da semântica, um nobre não seria um Parfait Chevalier (Perfeito Cavalheiro) se não conquistasse o amor de uma dama. Os trovadores cátaros foram na realidade os fundadores do "cavalheirismo cortesão". A mulher foi levada a assumir uma posição mais elevada na sociedade. Apesar de não ter podido lutar pelos seus direitos, ela fez o homem se sentir um guerreiro mais nobre. A mulher na Idade Média na Gália Meridional, foi elevada à um grau de mais respeito do que era comum ao seu tempo, em outras regiões da Europa.
Infelizmente para eles, não só ofenderam a Igreja Católica mas também se tornaram alvos da monarquia na pessoa do Rei Felipe Augusto da França. Ao alterarem os dogmas da Igreja Católica, despertaram o poder militar e político dos soberanos que tinham interesse econômicos naquela região.
No ano de 1209 o Papa Inocêncio III, um dos mais beneficiados pelos desmandos da Igreja Católica se pronunciou a favor de uma Cruzada contra os Cátaros. Reunidos na cidade de Albi, por isso também chamada "Cruzada Albinense", os Cátaros foram finalmente massacrados na primeira e única Cruzada que se fez em território europeu.
A música teve sempre um papel relevante no desenvolvimento da "Glória" da Igreja Católica. Até o período Carolígeno, que se iniciou com Carlos Magno no século VIII, não havia unidade musical na Igreja. A primeira música que foi escrita no sentido de Glorificar, apareceu no século IX através do "Canto Gregoriano". Antes disso não se tem notícia de notação musical escrita.
"O século XI assistiu o que se chamou de "farsa" da 'Glorificação'. Foi a primeira tentativa de utilização da melodia como adorno do texto litúrgico no sentido figurado."
Padre John Raymond[2]
As alegres canções de amor dos "Trovadores" podiam ser ouvidas em quase todos os lugares de trabalho dos Cátaros.

Tapeçaria
Francesa do Século XIII.
O nome "trovador" em si veio do provençal trobador, que por sua vez veio da raiz árabe TRB (Ta-Ra B, que significa música ou canção), mais o sufixo ibérico "ador", do "agente que faz", como na palavra conquista+ador. Os Trovadores procuravam imitar os cantores árabes não somente em sentimentos. Certos títulos que esses cantores provençais deram às suas canções eram nada mais nada menos que traduções dos títulos em árabe.
"Os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano. Existem duas espécies totalmente diferentes de mitologia: Há uma mitologia que relaciona você com sua própria natureza e com o mundo natural da qual todos fazemos parte. E há a mitologia estritamente sociológica, que liga você a uma sociedade em particular."
Joseph Campbell[3]
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Denominação
dos Artistas |
Delimitações
Geográficas |
Delimitações
Cronológicas |
Língua |
Delimitações
de Classe |
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Goliardos
(1) |
* |
século XI e XII |
Latim |
não existe à partir do
século XII |
|
Jograis
(2) |
* |
* |
* |
populares |
|
Menestréis (3) |
norte da França |
* |
* |
populares |
|
Trovadores (4) |
sul da França |
primeira metade do
século XII até o início do século XIII |
Languedoc |
nobreza |
|
Trouvères (5) |
norte da França |
segunda metade do
século XII |
Languedoil |
nobreza |
|
Trovatori (6) |
norte da Itália |
início do
século XIII |
* |
nobreza |
|
Minnesingers (7) |
Alemanha (principalmente (Renania e Baviera) |
fim do
século XII ao início do século XIV |
algumas vezes o latim mas a maior parte em alemão |
aristocracia |
|
(1) Goliardo - A maior parte da música profana da Idade Média (de Carlos Magno até o Século XIII foi obra dos Goliardos, que eram estudantes das ordens menores que viajavam através da Europa, de uma Universidade a outra, durante os séculos XI e XII, antes de se estabelecem numa determinada Universidade. Essas baladas estavam em desacordo com com a Igreja oficial. Seus repertórios iam desde a mais pura e casta canção a mais obscena canção de bordel. Fui achado em Cambridge o célebre manuscrito do Século XII de autoria de Carmina Burana de Benedictbeurn contendo seus poemas goliárdicos misturados sob a forma sagrada e profana, e que foi a fonte de inspiração para a Ópera "Carmina Burana" que Carl Orff escreveu no século XIX.
(2) Jograis - O Jogral canta, dança, faz acrobacias mas não compõe. Transportando para os dias atuais, poderíamos dizer que o Trovador é um artista que compõe e o Jogral um intérprete. O Jogral é um cantor itinerante, mas sobretudo um palhaço que faz de tudo um pouco e que com a sua roupa espalhafatosa que faz marionetes e apresenta animais treinados. Ele também poderia ser descrito como homem da igreja que trabalha com os pobres. Muitos Trovadores começaram como Jograis.
(3) Menestréis - Menestrel é um Jogral ligado a um serviço (Ministerium), daí o seu nome, de um Senhor ou de uma Corte. Ele teria por função animar os convidados de seu Mestre. De qualquer forma é uma ascensão social dos Jograis, condenados à vida itinerante para ganhar o seu sustento.
(4) Trovadores - As canções dos Trovadores são melodias cantadas em forma de solo e algumas vezes acompanhada por uma "vielle" (uma espécie de instrumento de cordas) que seria tocada por um outro instrumentista. Sem acompanhamento ela não ia a oitava. Quase todas as melodias parecem que faziam parte de um mesmo estilo recitativo litúrgico ou semi-litúrgico da igreja latina. O que distinguia as canções eram os ornamentos que floriam na rima, o que quer dizer ao final de cada um dos versos.
(5) Trouvères - A música dos primeiros "Trouvères" era bastante parecida com a dos Trovadores. Mas rapidamente os compositores do norte da França integraram no seu discurso musical, os elementos populares. Sua música evoluiu em simplicidade rítmica e melodiosa. Mais leves e alegres as canções dos "Trouvères" encintavam à dança.
(6) Trovatori - Com a Cruzada contra os Cátaros ou Albineses, muitos Trovadores procuraram se refugiar na Itália, país de um clima mais propício às suas inspirações. Raimbaut de Vaqueyras, Peire Vidal et Gaucelm Faidit foram parte desses Trovadores que contribuíram para estender a fronteira lírica além de seu país de origem. Se juntaram a eles os Trovadores italianos que impulsionaram não somente as técnicas como também a língua melodiosa. Os "Trovatori", os músicos-poetas italianos tiveram que não só se desvencilhar na influência aquitanesa, como o fizeram de forma eloqüente.
(7) Minnesinger - Vem de duas palavras em alemão da Idade Média, "Minne" (Amor) e "Saenger" (Cantor). Os "Minnesaengers" apareceram um século depois que os Trovadores. Hoje em dia sabe-se que os "cantadores de Amor" alemães conheciam com precisão as poesias e a música de seus pedrecessores. As suas canções revelam um refinamento poético e musical sem imitar os Trovadores.
Referências
Bibliográficas
[1]
A Tragédia Grega, Editora Perspectiva, 2a ed. pg17, 1976.
[2] The Gloria in the Life of the Church, monksofadoration.org/gloria2.html, 09/07/2003
[3] O Poder do Mito.São Paulo: Palas Athena, p35 1990
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