Guillaume IX d'Aquitânia             
o primeiro Trovador
 

POR MOACYR MALLEMONT REBELLO FILHO
 

          

     Guillaume IX (22/10/1027, Aquitânia, – 10/02/1086, Poitiers), Conde de Poitiers (ou Guilherme de Poitiers), nono Duque d'Aquitânia, sexto Conde de Poitiers e Conde da Gasconha, trovador ocitânio, foi o primeiro poeta cortesão da história.
     Guillaume IX possuía mais bens e riquezas do que o próprio rei de França. Estas riquezas lhe permitiam se eximir da Igreja de Roma e de recusar o seu engajamento na 1a Cruzada contra os mouros.       Casado com a filha  do Conde de Toulouse, ele afirmaria mais tarde, suas pretensões territoriais sobre o mesmo. Aproveitando a oportunidade que lhe oferecia esta a 1a Cruzada, tentou invadir as terras de seu sogro, mas a Igreja Católica o impediu de alcançar esse intento. Então organizou ele próprio uma expedição à Terra Santa, onde foi derrotado e teve que bater em retirada. A obra poética de Guillaume IX, marca o início da idade de ouro da literatura da língua dita vulgar ou romana na França. Ele inventou as palavras-chaves e as regras do Trovadores, fixou os cânones do lirismo cortesão, que se perpetuaram através das gerações seguintes de trovadores e, entre os trovadores do norte da França – os Trouvères.

     As onze peças que são conhecidas de Guillaume apresentam uma estrutura e uma versificação muito rica e variada.

     Duas estruturas principais podem ser encontradas dependendo se perdurarem na poesia cortesã ulterior: de uma parte as estrofes tem rimas alternadas e, de outra parte uma forma de canção composta de estrofes em duas partes, a primeira frons (frontal) em rima de mesmo comprimento, e a segunda “cauda” (cauda) mais livre. 

     Os temas das peças seriam igualmente de duas ordens: os invenctives (inventivos) e canções de origem gaulesas que aliam a presunção masculina à uma sensualidade brutal.

     Na sua vida privada escandalizou a sua corte. Mulherengo, repudiou a sua esposa legítima e por esta razão foi excomungado pela Igreja Católica.

     Entende-se agora porque certos poemas de Guillaume são pintados fortemente com cores de libertinagem. Na verdade de uma franca sensualidade. Por outro lado as canções que ele compunha à serviço do amor eram extremamente refinadas; desenvolvendo temas de um amor que apesar de ser sensual era também espiritual, promovendo a sublimação de uma figura feminina ideal

     Assim dedicou a esta dama uma paixão que beirava as raias da idolatria, fixando assim as regras da tradição cortesã de seu tempo, que caracterizou o amour cortois (amor cortesão).


     A complexidade do amor humano que se exprime atualmente é a favor de uma nova liberdade. O atrevimento é de uma certa forma incoerente nas manifestações poéticas e eróticas atuais e se explica pela absoluta ausência de codificação.

     As velhas convenções feudais foram há muito tempo deixadas de lado, mas também não se encontraram ainda novas convenções cortesãs que as substituíssem com as mesmas emoções.

 

                                  Pos de Chantar                                  (Desejo de Cantar)

   Guillaume IX d'Aquitânia

Francês Provençal Antigo

Português

1.
Pos de chantar m'es pres talentz,[
1]
Farai un vers don sui dolenz:               
Mais non serai obedienz,                          

En Peitau ni en Lemozi.                             

1.
O desejo de cantar envolve meu talento,
Farei uns versos sobre minha dolência;
Mas não serei obediente [
2]
Nem Poitou nem em Limousin. [
3]           4

2.
Qu'era m'en irai en eisil:
En gran paor, en grand peril,
En guerra laissarai mon fil,
E faran li mal siei vezi.

2.
Eu agora parto para o exílio:
Com grande medo, com grande perigo,
Para a guerra, eu levarei meu filho
E lhe farão mal eu sei.                                8

3.
Lo departirs m'es aitan grieus

Del senhoratge de Peitieus!
En garda lais Folcon d'Angieus

Tota la terra e son cozi.

3.
A partida dos meus domínios [
4]
De Poitiers é tão difícil para mim!
Em guarda deixei Foucon d’Angers [
5]
Toda a terra de seu primo.                      12

4.
Si Folcos d'Angieus no.l socor,
E.l reis de cui ieu tenc m'onor,
Faran li mal tuit li pluzor,
Felon Gascon et Angevi.

4.
Se Foucon d’Angers não os socorre,
E o rei do qual eu prendo meu domínio,
Fará muito mal para todos,
Os traiçoeiros Gascons e Angevins.[
6] 16

5.
Si ben non es savis ni pros,
Cant ieu serai partiz de vos,
Vias l'auran tornat en jos,
Car lo veiran jov' e mesqui.

5.
Se ele não é sábio nem poderoso,
Quando eu partir,
Eles cedo o veriam,
Como jovem e fraco.                                20

6.
Merce quier a mon compaignon
S'anc li fi tort qu'il m'o perdon;
Et ieu prec en Jesu del tron
Et en romans et en lati.

6.
Misericórdia para meus companheiros
Se eu me enganei perdoem-me;
Eu oro por Jesus no trono,
Em romano e em latim. [
7]                     24

7.
De proeza e de joi fui,
Mais ara partem ambedui,
Et eu irai m'en a Scellui
On tut peccador troban fi.

7.
Eu fui poderoso e feliz,
Mas agora nos partimos,
E eu irei para Alguém [
8]
Onde os pecadores encontram ficam   28

8.
Mout ai estat cuendes e gais,
Mas Nostre Seigner no.l vol mais;
Ar non puesc plus soffrir lo fais,
Tant soi aprochatz de la fi.

8.
Eu fui jovem e alegre,
Nosso Senhor que não aconteça mais;
Agora eu não sofro mais desse peso,
Desde que se aproxima o fim                 32

9.
Tot ai guerpit quant amar sueill,
Cavalaria et orgueill;
E pos Dieu platz, tot o acueill,
E prec li que.m reteng' am si.

9.
Deixei tudo que eu amei,
Cavalaria [
9] e orgulho;
E se Deus quizer, tudo eu aceito,
E eu oro para que Ele me retenha.        36

10.
Toz mos amics prec a la mort
Que vengan tut e m onren fort,
Qu'eu ai avut joi e deport
Loing e pres et e mon aizi.

10.
Todos os meus amigos, na minha morte
Que venham todos me dar forte honra,
Que eu receberei feliz e satisfeito
E eu oro para que Ele me retenha.        40

11.
Aissi guerpisc joi e deport
E vair e gris e sembeli.

11.
Renuncio a alegria e ao prazer
O marrom, o preto e o luto.                    42

 

 

X

 

Comentários sobre a tradução

X

(tradução para o português - Moacyr Mallemont Rebello Filho)

X

[1] Os três primeiros versos das trovas rimam entre si, enquanto a quarta linha rima com as quartas linhas das demais trovas.

[2] ao amor.

[3] os domínios de Guilherme IX.

[4] Domínios = Propriedades.

[5] Foucon d’Angers, amigo de Guilherme IX fica com a responsabilidade de defender o patrimônio do Duque de Aquitânia.

[6] Os Gasgões e os Angevins são os adversários de Guilherme IX, Duque da Aquitânia.

[7] Na realidade “Romano” é o francês provençal antigo, no qual o texto está escrito. Nas duas línguas, para certificar-se que Deus o ouvirá.

[8] Alguém é Deus.

[9] Se refere as regras da Cavalaria que formavam o CavalHeiro, e não ao esporte.X

Fundo musical - Rondó em lá menor.

X

IN MEMORIAM


 

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