Adorno destas casas

Do estremo brilho destas janelas,
das pedras solenes pétreas das pontes,
adorno das casas destas querelas,
das álgidas manhãs das toscas fontes.

Do toque longínquo dobre da tarde,
ganido do cão da brenha da relva,
clamor do silêncio da sobretarde,
dos canteiros, verves alegres selva.

Cântico exausto desta pradaria,
lascivos dos uivos pios destas almas,
rezando sozinhas desta ave Maria.

Montam avejões dos brios destas lápides,
os pássaros, quase luz destas palmas,
anunciando morto pranto das lides.

Eric Ponty

Súbito desta brisa da tarde

I

Prado céu descortina do morrente
ressoando poente tão azul atroz.
Voz desta brisa, mais quieto arguente
do mar vaga, sudário desta foz.

Da flor da manhã ardida sem findar
ser sôfrega, ecoando, não parar
de este ser regozijo descontente
desta luz desatina do solar.

Porém se nos curvar pôde o pavor,
desta estranha vertente liberdade,
então confinaria de si; favor?

Morrer ao ser tecida da metade
carpir de quem morreu do desamor
desta cruz corroída mocidade.

II

Desta manhã deságua branca à tarde,
da resoluta terra álgida enseada,
batendo à tarde atroz batendo à tarde
deste mar desta luz quis serenar.

Se da nuvem batendo dobre hino,
desta tarde batendo à sorte lar,
se deste do impávido fez mito,
sem alarde batendo à brisa arar.

Se do bronze tangido agoniado,
deste sino balado deste prado,
alvo clamor da ovelhas arados.

Se do guizo da morte fez-se ar,
fez-se moça do campo do prado,
sem alarde batendo à brisa toar. 

Para Transeunte
( do tema de C. Baudelaire)

Atordoante rua, autora deste ruído,
lançar grande dor súbita majestosa,
da fêmea passar desta sua mão faustosa,
alçando-se balança à bata, o vestido.

Ágeis e nobres pernas estátua sacra.
Da minha verve crispa-se delirante
d olhos lívidos céus cernes tempestade
da doçura fascina e prazer massacra.

Clarão... Pois à noite! Bela fugaz
d olhar bruto, tez repente renascida,
de não vê-la senão desta eternidade.

Alhures longe daqui! Tardia! Quiçá
ignoro donde vais, tu vais de partida
O tu tinhas amado, ó tu sabes lá.

Eric Ponty

Manifesto contra o sofrimento das pedras

Refluíram manhãs das serras
pedras pálidas emergem
de suas falas ao solo
ajoelharam-se ao sol
exaustas carregarem as sombras.

Anoiteceram as oportunidades
nomeados os nomes dos astros
extinguiu-se a tarde do pássaro
esvaiu-se o canto da cigarra
numa réstia de mágoa
do languido Lenheiro.

Restaram rachaduras
de sustentar os bramidos
dos anos, dos séculos, da história,
das fozes abissais, do grito
sonhando tezes da tarde.

Eric Ponty

Da tarde aspirada da nau à luz ágrafa

Da tarde aspirada da nau à luz tão ágrafa,
refém aponta-nos da tez desta cruz,
da tarde remota do campo do bosque,
destino preclaro nos faz ascender.

Do lar deste pélago céu do abril,
da trilha das aves das águas azuis,
aberta da luz acendeu-se do teto,
das hordas pelúcidos sonhos do fogo.

Das quadras carpidas dos lôbregos mármores,
do timbre luzido fanal deste zênite,
silêncio fadado dos hinos das flores.

Do réquiem do coro soado da missa,
dos brilhos dos brios deste selo das réstias,
apagam nas ondas dos rios deste trevo.

Eric Ponty

 

 


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