Soneto ao Órgão
(A Carlos André)
Os tubos soando intensas melodias
De mestres antigos da Arte das Musas,
Além de fazer-me perder entre fusas,
Levam-me tão longe nesses pobres dias...
Os ares soturnos exalam magias
De idosos adágios em noites difusas,
E os doces incesos repelem medusas
Que formam-se junto à outras fantasias...
Os brancos teclados farfalham perdidos
Antigos lamentos de trezentos anos
E que hoje estão quase desconhecidos.
Ao Céu vou subindo como uma neblina,
E em êxtase pleno vou a outros planos,
No soar dos foles negros em surdina.
Gabriel Rübinger
Tecnologia
Os homens que, no progresso profundo,
Descobriram milhões de coisas novas,
Com suas brilhantes máquinas e provas
Das forças que nos regem pelo mundo,
São os mesmos que cavaram a cova
De toda a Humanidade, poço fundo,
Em que há de cair o mais imundo
E o mais limpo também pela desova.
São homens que destroem e constroem
Essa raça humana, e dão o aviso
Dos erros que cometemos e doem.
E também são os mesmos que, na dança
Tão louca desse mundo, dão o riso
E um suspiro de alívio e esperança.
Gabriel Rübinger
Soneto do Imenso Tempo
Vão-se anos e anos, e planos e planos,
Enganos e anseios aos poucos se vão:
Depressa, o Tempo, (não tens opção)
Qual mar tudo leva aos frios oceanos.
Soberanos, donos da escravidão,
Profanos, divinos, meninos, tiranos,
Partirão um dia em prantos afanos,
Ao dobrar dos sinos de um carrilhão.
Até o silvar celo de um sanhaçu
Ecoando belo no breu de uma tarde,
Ainda sumirá, como o amor que nos arde.
Tempo, angústia eterna, tempo-imenso, açu,
Deixai que a flor murche nessa tua dança,
Mas jamais deixai que morra a esperança!
Celo: prefixo grego com a ideia de "cavo", "oco".
Açu: palavra e sufixo tupi que tem a ideia de "grande", "vasto".
Gabriel Rübinger
oites Vazias
Assim vivo a viver os pobres dias
Que a vida tem me dado nesses anos:
Amor, amor, todos os nossos planos
Vão se realizar? Tardes baldias...
Assim vivo a viver noites vazias
Entre promessas, torpores, enganos...
(Te lembras dos viajantes ciganos
Que um dia preveram as nossas crias?)
Te lembras de nossas valsas celestes?
De adágios recitados por ciprestes
Enquanto as açucenas floresciam?
Eu lembro e disso só tenho vivido
Pois no resto não vejo mais sentido,
Nas sombras que as estrelas refletiam...
Gabriel Rübinger
Rosa de Sangue
Tu és uma rosa, uma cândida rosa,
Que do Éden brotou em uma sagração.
Uma graça probida, áspide nebulosa,
Infinita beleza vinda em profusão.
Forma perfeita e pura, luzente, briosa,
Glosa do mais belo fruto da Criação!
Rosa grã e lasciva, ó ardente rosa!
Meu caminho errado, minha perdição...
Rosa de diamantes, brilhantes astros,
De milhares de faces, de ausentes rastros,
És um manto litúrgico embriagador!
Rosa sólida e frágil, vívida e exangue,
Em carne e amor, minha rosa de sangue,
Meu cometa errante, distante da dor.