MÃE

Olhos azuis, cor da maresia.
A xátega na foz meu Pai ancorou.
Nas ondas, tua mão, ternur’amacia,
Nesta mulher gaivota, qu’hoje sou.

Foste tule branco do meu noivado.
Tiara que meus cabelos enfeitou.
Foste celeiro do gérmen sonhado,
No barro que teu ventre, me moldou.

Pés na Terra! Firmeza na raiz!
Boca - Pão! Palavras - sabor a milho!
Caule firme nas palavras que diz.

Na montanha, o cabelo branqueou.
Tronco curvado! Mimos dum filho
No corpo gasto, que o tempo mudou.

Fernanda Garcias

MORENO


Há quanto tempo, eu te desejava.
E tu por mim! Já eu sentia.
Além de todos os sinais que me dava,
Indiferente, fazia que não via.

Por ti tinha amor, parecia lume.
No meu peito, ardias em segredo.
Ao mesmo tempo, sentia ciúme,
Fazia-me forte. Escondia o medo.

Quero enrolar-me agora em ti.
Loucamente amar e ser amada.
Em mim sentir, que sou desejada.

Sentir a paixão, como nunca senti.
E esse amor viver, com intensidade...
Tudo em nós esquecer, até a idade. 


GUITARRA QUIS SER

Quis um dia ser um objecto,
Onde passasses, tua suave mão,
Sentir-me eu de ti, muito perto,
Mais perto ainda do teu coração.

Desejei muito uma guitarra ser,
Para no teu colo me deitares,
As minhas fantasias conhecer,
Para com teus dedos, acariciares.

Suavemente toda me beijavas,
Com teus suaves dedos dedilhavas,
Entre grande magia e saber.

Entre brancas nuvens, me deleitava,
Eu todo o prazer exteriorizava,
Entre doce gozo e suave prazer.


SARGACEIROS

Ver esses homens de olhares fincados,
Olhares que olham muito além…
Olhares rudes que arrancam o pilado
E desbravam, o mar como ninguém.

Bravos homens! Não são feitos de sal.
Arrancam o argaço tão almejado,
Pondo em perigo a vida, ao mar e ao mal
E a Terra grita o sustento desejado.

Homens que pelo mar têm respeito,
A ele se curvam, sem ressentimento,
Despindo em Terra, o Amor e sentimento.

Vão despidos de roupa e de direitos,
Não sabendo se vão ter vida ou morte…
Chegado ao corpo nu. Branqueta e sorte.


MINHA ESCOLA

Minha escola é de velha traça.
Nela aprendi a ler e a escrever.
Amar a todos, indiferente da raça.
Nos amigos, a mim mesma rever.

Lá conheci as cores das letras,
Senti nas palavras feitas, os cheiros,
Dif’renciei os gostos, brancos e pretos,
Nas contas pus os sentimentos primeiros.

Aprendi:

Os segredos dos amigos guardar,
Ofendida, sempre a cair de pé
E à amizade, sempre dar-lhe: valor.

Quem me ensinou nas ondas a nadar?
A combater as agruras da maré? 
Minha praia de ensino foi o professor. 

( Fernanda Garcias)

 

 


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