Canto Solidário
Fátima Irene Pinto
Meu sabiá canta como quem chora,
Diversas vezes na mangueira ao lado.
É como se ele conhecesse a hora,
Em que estou triste e ciente do meu fado.
Meu sabiá é mais que solidário,
Parece me mandar seguir em frente.
Conhece bem as contas do rosário,
Que, dia a dia, eu oro penitente.
Dia chegará meu doce passarinho,
Como você eu hei de ter meu ninho,
E fazer festa pro meu bem amado.
Então seu canto ressoará festivo,
Pois finalmente existirá motivo,
Para saudá-lo na mangueira ao lado.
QUANTOS CAMINHOS?
Fátima Irene Pinto
Quantos caminhos tu terás que percorrer,
Descendo morros, p'ra de leve parecer
Com o moço alegre, onde se via o esplendor
Da vida airosa e plena, cheia de verdor?
Estranho atalho este que tomaste um dia!
Bem que quiseste declinar mas não podias,
E, sem escolha, tu abraçaste o mal caminho,
Qual condenado quando ruma ao pelourinho.
Eu ouço em ti uma canção que dói em mim,
E tu repetes a canção qual um lamento,
Como um pedido de consolo ao teu tormento.
Então te acalmo e digo: tudo tem um fim,
Vê a lição mesmo na escolha equivocada,
A noite escura só antecede a madrugada.
Vá!
Fátima Irene Pinto
Não se preocupe.Vá! Que eu rejunto os cacos,
São estilhaços tantos ... mais parecem pó.
Um bom restaurador talvez faça um mosaico,
Se no seu coração houver bondade e dó.
Não se preocupe. Vá! Você não é o primeiro,
A me jogar no chão ... nem o último será.
Eu cumpro o meu destino. Você é só o arqueiro
Da lança que já veio e da que virá.
Não se preocupe. Vá! Que eu junto os destroços.
Talvez haja um retrato seu entre os escombros,
Se acaso o encontrar prometo que devolvo.
Não se preocupe. Vá! Que eu rejunto os ossos,
Se tal eu conseguir, eu hei de dar de ombros,
E, para seu assombro, irei amar de novo.
Amigo!
Fátima Irene Pinto
Não, amigo, não sou uma fortaleza.
Há dias que nem mesmo tenho a mim.
A alma nubla e falta-me a clareza,
Até p'ra decidir um não, um sim.
Mas mesmo assim podes contar comigo,
O que eu tiver de bom, eu te ofereço.
Cá está meu ombro frágil, mas amigo,
Tu tens, antes de tudo, o meu apreço.
Quem sabe nos momentos de agonia,
Eu possa suavizar o teu caminho,
Ou mesmo aliviar-te das agruras.
Quem sabe nos momentos de alegria,
Transbordes a minha taça de carinho,
E vamos festejar nossas venturas.
Em Carne Viva
Fátima Irene Pinto
Eu sou uma vastidão de sentimentos,
Eu sou alguém de fios desencapados.
Nos meus sentires tão exacerbados,
Eu vivo e morro em cada vão momento.
Aquilo que aos demais passa batido,
A mim é como lâmina ou punhal.
É êxtase, é júbilo sentido,
É forte e intenso feito vendaval.
Quem sabe numa próxima existência,
Me caiba o privilégio da inocência,
E o prêmio de uma vida linear.
Mas nesta eu perambulo em carne viva,
Sem pele, na nudez tão dolororida,
Que marca o meu destino singular.