A alma e algo mais
Eugénio de Sá
Quando as almas descobrem o amor
Quando se verte Deus na existência
Pode viver-se então nessa excelência
Transcendência de um bem inspirador
Quando a causa é comum e à vontade
Se une uma vontade superior
Transformam-se as verdades em penhor
Pla dimensão maior da afinidade
E banha-se de luz todo o semblante
E invade-se do bem toda uma vida
Em cada dia é bom todo o instante
E assim se dá ao amor casta guarida
Já que acedeu ao ser que é dele amante
A serena assumpção dessa medida
A ti, mulher
Eugénio de Sá
Tanto de ti, mulher, queres consagrar
Tantos cansaços, tantos sofrimentos...
Quantos golpes de rins tu tens de dar
P’ra fazer face a tais cometimentos
E se outros mais encantos não se mostram
Nesse teu rosto a sulcos retratado
É porque os mais desgostos se confrontam
Com o riso nos teus lábios, apagado!
Mulher e mãe, julgada e julgadora
Todos te flagelam, implacáveis
Quando dos males te apontam causadora
Mas os credos de Deus são insondáveis
E como Salomão, és sabedora
Que os dons do coração são indomáveis!
Injustiçados
Eugénio de Sá
Aqueles a quem a morte mais reclama
Porque muitos invernos já viveram,
Os que da vida a chama já perderam
E têm por incertos pão e cama;
Essas árvores que aos ventos não vergaram
P’ra confortar a prole da sua rama,
Que hoje (ao abrigo) lhes ignora o drama
E que despreza o bem que eles fizeram;
São os credores maiores da sociedade
Desta que os omite e os maltrata
Votando-os à aviltante indignidade
E enquanto a miséria os desbarata
E os esmaga tanta iniqüidade
O abandono p’los seus é que mais mata!
De fé perdida
Eugénio de Sá
Cheiros de ti ficaram na almofada
Que junto à minha, alva, permanece
E enquanto me tarda a alvorada
No frio da noite só ela me aquece
As saudades são tantas e a dor
Da tua ausência nos nossos lençóis
Trazem memórias vivas do amor
que tal como a minh’alma tu destróis
Surgem alvores do dia e dou comigo
Remoendo as razões deste abandono
Mas mais do que abismar-me não consigo
Porque te dei de mim todo o meu sono
Se o que investi em ti estava perdido
Até a fé, que agora não tem dono!
Estás-me no sangue, amor
Eugénio de Sá
Como te sinto em mim, de veia em veia
Como eu te leio o feminil apelo
Colhe de mim, mulher, o meu desvelo
Que o meu amor por ti não se escasseia
Invadiste-me o ser e hoje vibrante
O teu amor em mim deu ser ao nada
Quando de veia em veia, desbotada
Est’alma já perdera o ser amante
E assim, mulher, amiga, companheira
Sabe que ora te entrego a vida inteira
Em troca da virtude deste amor
Sabe de mim, mulher, que t’amo tanto
Que não tenho medida, não sei quanto
Mas o meu sangue tem a tua côr
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