CORAÇÕES DE PEDRA
Os seres humanos constroem hoje altos muros,
Para uns dos outros, sem amor se dividirem,
Utilizando seus corações de pedra “ duros “,
Para não se verem, não falarem nem se ouvirem.
Perderam o sentido da amizade,
Ofendem-se uns aos outros sem razão
E depois nunca lhes nasce a vontade
De se unirem em reconciliação.
Os dias belos deste tempo em que vivemos,
São frustações, pois vivê-los não sabemos.
Só construimos entre nós separação !...
E cada dia, está mais presente este drama.
O ser humano, hoje odeia mais do que ama,
Petrificando lentamente o coração !...
Euclides Cavaco
SOLICITUDE
Rasguei da terra o ventre e, semeei,
Em fértil solo, pequenina uma semente,
Que após nascer com cortesia cuidei
E vi crescer pouco a pouco lentamente !...
Reguei com mil cuidados a raiz
E o tempo a fez viçosa com a idade,
Vê-la aumentar fez de mim um ser feliz,
Por ela ser a minha árvore d’amizade...
A vida inteira dediquei p’rà conservar,
Sem a deixar nem um momento ao abandono,
Não fora tão sòmente “o plantar”!...
Aquela árvore é p’ra mim todo um tesouro,
Porque as folhas que colhi em cada Outono,
São os amigos... Que valem mais do que o ouro!...
Euclides Cavaco
LÁGRIMAS CALADAS
Meus olhos, são de lágrimas nascentes
Que frias correm, sempre em constante lamento,
Na sua angústia como se fossem correntes
Que só convergem junto ao mar do sofrimento !...
Ocultas lágrimas em silêncio derramadas,
Dissimuladas em sigilo e sem guarida,
São o refúgio das minhas mágoas caladas
Que a alma sente das tristes penas da vida...
E cada lágrima deixa a marca amargurada
Dum suplício que não se vê e só se sente
Feito infortúnio da sorte desventurada...
Amarga é a dolência gotejada,
No tácito pranto de solidão plangente
Presente na dor... duma lágrima calada !...
Euclides Cavaco
MADRUGADA DA VIDA
Saudades do meu berço, hoje lembrança,
Da doce infância, desse tempo então sagrado,
Em que tinha minha mãe, eterna esperança …
A embalar com ternura, o filho amado !...
Ensinou-me com afago e docemente,
O seu saber, num universo cristalino,
Puras lições que ainda leio no presente,
Oriundas do meu berço matutino !…
Aprendi nessa candura em sonho ledo,
A sorrir ao que a vida tem de belo …
Arrostando o iníquo mundo sem ter medo.
Recordo agora saudoso… e em segredo,
Meu leito de criança mui singelo,
Que minha alma chorou...perder tão cedo !…
Euclides Cavaco
O TEMPO QUE NÃO VIVI
Só bem tarde me foi dado constatar,
Que outro mundo havia assaz diferente,
Daquele que o destino me quis dar,
Onde tudo acontecia lentamente…
Poderia ser menino, mas não fui !…
Nem me foi dado saber que existia
O direito à igualdade, que inclui
Para todos o mesmo Sol, em cada dia.
Apenas vegetei… Sem ter sabido,
Que outro mundo havia mais coerente,
Onde a vida tinha muito mais sentido…
E hoje, choro triste e comovido,
Esse vazio, que lamento amargamente,
Do tempo que vivi… Sem ter vivido !…
Euclides Cavaco
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