VIDA
Ernane Gusmão
Quando eu morrer,não quero a cova escura
Nem a gaveta fria de cimento.
Eu quero em cinzas ser lançado ao vento,
Ao Léo da sorte,sobre a terra dura.
Ao vir a chuva,a sutil textura
Seja lavada,e nesse novo alento
Penetre o solo,seja bom fermento
Da terra e volte,como relva pura.
E quando,amigos,me quizerem ver
Nest’outra vida que eu vou viver
Não me procurem a tumba recusada...
Me vejam sobre os campos,vicejando,
Nos trinos que os canários vão cantando,
No relincho de um potro em disparada.
SEIOS PROIBIDOS
Ernane Gusmão
Teus seios,são dois frutos proibidos,
Maduros pomos que me fogem à mão
Promessas e prazeres não vividos,
Jardim do Éden que não teve Adão
Encantos de perfumes coloridos,
Recamos do teu corpo,sedução.
Buquês de rosas nem sequer colhidos
E pétalas perdidads pelo chão.
Não os festeja o beijo apaixonado,
Nem a volúpia do teu bem amado
Neles encontra calmaria e cáis.
É que não sabes...o calor do seio
Semelha um porto,de amarras cheio
E atraca amantes que não partem mais.
O BEM-TE-VI
Ernane Gusmão
A suavidade anil do morno leito
Se abre para o azul do nosso amor
E me recebe inteiro,quando deito,
Ao lado do teu corpo e teu calor.
Nos enroscamos,beijos cobrem o peito,
Eu me derramo sobre o teu pudor.
Às mil carícias de tua mão afeito,
Deixo me levem,para onde for.
Nós nos julgamos longe dos olhares
Das águas,terra,e também dos ares,
Mas eis que a ave bem de nós sorri.
Espreita entre amêndoas o rameiro,
Estica os olhos,bico fofoqueiro,
Pela janela grita: BEM-TE-VI !...
LICOR DE ANIS
Ernane Gusmão
Licor de anis,azul,embriagante,
A cada gole meus desejos trais.
O vulto da singela e doce amante,
Fluidos perfumes,densas espirais.
Eu sorvo a tona desse anil bacante
E me inebrio em delírios tais.
Ouço o murmúrio dela,soluçante,
Em sintonia com meus mudos ais.
A timidez me prende;soluçando
O c\oração reclama- segue avante,
Por que não quebras o temor e vais?
E,quedo embora,bafejou-me a graça...
Licor de anis sumiu da minha taça...
Mas ela,dos meus olhos,nunca mais!...
SONETO MULHER
Ernane Gusmão
Os meigos olhos e as maçãs do rosto,
Completam um quarteto sem rival.
Mas as covinhas do sorriso posto
Juntam nos lábios uma estrofe igual.
Dois feixes negros de cabelo ao gosto
Despertam trismos de prazer sensual.
Nos lisos ombros,divinal recosto,
Encontra outro quarteto seu final.
Os seios eriçados,gordos pomos,
São versos de um terceto,soltos gomos,
Prelúdios para o cavo umbilical.
E as coxas incitantes,turgescentes,
Escondem nas raízes pubescentes,
A chave de um soneto original.
Se faltam ainda as pernas bronzeadas,
As panturrilhas cheias,torneadas,
E os pezinhos de fada,ou cinderela...
É que mulher formosa qual a minha
Não coube num soneto que só tinha
Quatorze versos...a falarem dela!...
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