Ah! Minhas letras
Eliane Couto Triska

Sem ti, é para as letras que me entrego
Às determinações de uma vertente
Vidrada, pontiaguda - louco ego!
Ferindo sem sentir... ingenuamente.

Migradas, chegam de outra identidade,
Refugos... São de um jovem escritor
- O lixo - desistente à sua verdade,
Do insuportável, crer a própria dor!


São feitas da matéria da tristeza,
E espumas do enrugado vagalhão;
Por mares prateados de aspereza,
Das muitas luas sucumbindo ao chão.

Ah, crianças, os meus versos-nostalgia,
Urinam-se aos soluços na cidade,
E vão viver na minha poesia,
Como se fossem seres de verdade!


A cor por direito
Eliane Couto Triska


Eu não sei de qual barro te saíram:
Se do fogo de chão acobreado,
Ou ébanos do céu alto tingiram
O africano das terras, colorado?

A natureza baila sobre trilhos,
E em cada novo ato faz canção.
Trazida longe, em grandes malas, filhos,
À paisagem ainda em construção.

O sol te honrou na cor da hora exangue,
Qual ferro dos grilhões deu grosso ao sangue.
Por que o amor é um campo abandonado?

Ao levantar dos séculos perdidos,
Os direitos do homem erigidos,
Pelo próprio homem, envergonhado!


Oráculo das mãos
Eliane Couto Triska


Voltei a orar num céu de muitas sendas,
E ascender no solar do coração,
Um mar com rosas brancas de oferendas,
Sol líquido da imaginação.

O horizonte ancestral, veio das terras,
Saliva no meu chão, beiço das hortas.
Que grande boca no engolir das eras,
Me joga à vida o peso das encostas?!

Minhas mãos vassoureiras limpam cascas,
Nas cabeceiras mornas da memória,
Por águas fundas livres das borrascas.

A sós, viverão nuas como lanças,
E brincarão no céu a absurda história,
Como unidas assim, foram crianças! 


Instintos
Eliane Couto Triska


Na imensidão dos ventos sossegados,
Fantasmas misteriosos do vazio,
Lêem a noite nos astros congelados
Fundam silêncios... e povoam o frio.

O corpo das marés pranteia a esfera.
Olho azul gigante do infinito.
Se pode no infinito ver-se a terra,
E vendo que não vê ser mais bonito?

As sombras inocentes, cor do estanho,
Fecundam-se na luz... um caldo estranho!
Os servos são gerados como seus...

A vida se abre indômita e urgente,
D'outro olho estelar, novo, se invente,
E a face se revele às mãos de Deus.


Flores que redimem
Eliane Couto Triska


São flores de Maria, o enfeite à mesa
De plástico, no madeiro ofendido.
Velha árvore - a brasa do cozido.
Que chora no fogão sem mais beleza..

Maria, os teus passos são os meus.
Folguedos, e ilusões, se comunguei,
Os risos dos meus anos, te confiei; 
Àquela que seria a mãe de Deus.

À que me pôs no mundo, dei-lhe flores.
Pois se a outra Maria desconcerta;
Santa é a imagem da Virgem, sem rancores.

Levanta-te, e sai desta calçada,
Com as mãos cheias de flores, te liberta.
E sobrando-e dores diz-te: É nada!

 

 


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2006

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