SOBRE CERTOS POEMAS
Demétrio Pereira Sena
Um poeta está sempre buscando sentido
Na verdade que ronda seu senso das tais,
E por mais que a esperança lhe tenha mentido
Ele sempre a sustenta com sonhos a mais...
Há no vate o desejo de mostrar os rostos
Com que a vida se mostra nos pontos-de-vista,
Vasculhar cada cheiro e sentir os gostos,
De segredo em segredo seguir cada pista...
Tece todos os temas quem faz o bom verso,
Pois o bom menestrel é completo e diverso
Tendo a pena inerente por membro adjunto...
Quase todos; confesso que sei, na verdade,
Um dos temas engana toda a humanidade;
Os poemas de amor são por falta de assunto...
IDÉIA FIXA
Demétrio Pereira Sena
Tem reservas e cismas quanto à Marta;
Quase apalpa essa idéia fictícia;
Nem a pobre da Sônia ela descarta,
E já fala besteiras de Letícia...
Sugeriu até mesmo que armaria
Uma grande cilada, em tal astúcia
Descobrindo meu caso com Maria
Ou a causa de tanto olhar pra Lúcia...
Outro dia me disse que da forma
Como fico sem jeito quando a norma
Chega perto de nós, não mais confia...
Roga pragas pra loura do mercado
E procura em meus bolsos um recado
De Fernanda, de Vânia ou de Sofia...
DOCE LUXÚRIA
Demétrio Pereira Sena
Hoje o mundo se acaba e começa pra nós
Uma etapa infinita, não sei até quando,
Que desata no peito o silêncio da voz
Onde o tempo era nave sem rumo e comando...
Uma força remove o sentido nefando
Das verdades da vida, e deságua igual foz,
No melhor de quem somos, agora nos dando
Esse prisma dos nortes, da linha de após...
Tudo soa tão tenro na cara do fim;
Toda brisa que sopra responde que sim
Brindando-nos com beijos macios e sãos...
Essa calma em redor nos transmite o recado
Pra vivermos sem culpa, sem crime ou pecado,
Nem juizes, carrascos, gurus e cristãos...
OMELETE
Demétrio Pereira Sena
Numa vida que agora espreme o cubo
E dizima os meus planos usuais,
Planto imagens, mas nunca tenho adubo;
Quanto às chuvas, são poucas, casuais...
Minhas quedas estão habituais,
Nos abismos dos quais a custo subo (...);
São saídas, porém, conceituais,
No sonho que respiro por um tubo...
A cara desse caos agora exposto
Cava rugas profundas no meu rosto
Sempre atento aos prováveis tombos novos...
E me canso do mal que se repete;
Chega o ponto em que (nada de omelete!)
Só quebrei, um a um, todos os ovos...
DALTÔNICO
Demétrio Pereira Sena
Vejo que todas as coisas são góticas,
Pois hoje meu olho está bem mais crítico;
As pessoas estão todas robóticas
E me assustam com seu ar analítico...
Estes dias (de pura matemática)
Nada somam no meu sorriso inválido,
Quando flui de minh´alma performática
Rebuscando entre o lábio frio e pálido...
Sinto que todas as crenças são míticas,
As grandezas do mundo estão raquíticas,
Meu estado de espírito está crônico...
Viver, por si, já se tornou patético,
Tudo é turvo a meu ver inerte e cético;
Acho que todo doente é daltônico...
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