SEREIA
Ceres Marylise
Iça velas, zarpa em teu navio
e navega-me esta noite enamorado.
Solta o timão, atende ao teu arbítrio
e deixa-te percorrer no mar bravio.
Soçobra por meu mar amotinado,
até encalhar teu corpo junto ao meu.
Atira a âncora sem medo e calafrio,
vem conhecer o meu amor molhado.
Apagarei o farol dos grandes mares,
alisarei a areia de uma praia
e abraçarei teu corpo renascida.
Fundirei teu navio aos meus pesares
e o teu amor, para que não te afastes,
amarrarei com os cabos de minha vida.
ESTA SAUDADE
Ceres Marylise
Visto-me como o outono: de amarelo,
cor dos meus sonhos não concretizados.
Nesta paisagem de brisa enfraquecida,
há folhas secas também, adormecidas.
Meu coração de pássaro tráz brilho
de outonal e romântica abordagem,
de crisântemos que vivem escondidos
e só se mostram na cor desta saudade.
Só assim eu me encontro com tu'ausência,
que está onde eu estou, nesta lembrança,
e em minhas mãos que nobres, já se cansam.
Que no meu sangue a gritar tua presença,
haja um cartel de silêncio e um acordo:
de esquecer o mal desta distância.
TODOS OS MEUS DIAS
Ceres Marylise
Retornas à minha mente após longo recesso
e nasce um leve pranto, talvez de nostalgia.
Tento romper de vez o mal desse regresso
e recuso-me a aceitá-lo em tenaz rebeldia.
Fraqueja meu sentir e minha força é o verso
a desnudar meu silêncio, fiel melodia,
que conduz e arrasta todo o retrocesso,
vai-e-vem de incertezas e melancolia.
Brisas vêm enxugar algum resto de pranto,
luzes chegam e reclamam carícias que faltam,
mas cansada de amar-te, faltou-me energia.
Agora, sem amarras, meu vôo levanto
e empreendo a viagem enterrando agonias
ao sentir que te esqueço, todos os meus dias.
SIMPLICIDADE
Ceres Marylise
São as coisas mais simples, as mais belas;
por exemplo, um sorriso nos teus lábios,
o fulgor de uma estrela, o mar sem fim
ou na areia, as marcas dos teus passos.
São as coisas mais simples, com certeza,
as que mais fundo calam em minha alma,
como o vento soprando mansamente
ou o tênue sol que anuncia a alvorada.
E por ser simples, prefiro que teus olhos
reflitam sempre a paz de tua bondade,
quando te abraço e beijo com paixão.
É por isso que me tens apaixonada,
e com razão, pois bebo trago a trago,
as coisas simples que tens no coração.
ITINERÁRIO NOTURNO
Ceres Marylise
Ultimamente, viajo no abstrato,
falta-me a aura e a magia de poeta.
Há dias não me chega inspiração:
ela está seca, dorme, não desperta!
Talvez, os meus tantos dissabores,
na palidez constante do silêncio,
necessitam de sonhos nessas horas
e eles não vêm há bastante tempo.
O itinerário incerto de minhas letras
suspira como ondas nas borrascas,
e singra frágil pelo branco do papel.
Tal qual lamento de um moribundo,
que se revolta diante da certeza,
e em seu silêncio, cede e clama ao céu.
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