MÃE
Carmo Vasconcelos

Tal Rainha Santa que em rosas tornou o pão,
Tu tornas, mãe, nesse teu ventre, o amor em filhos!
Nessa alquimia, os vais juntando, quais cadilhos,
À nívea franja do teu grande coração!

Não sendo tu Rainha ou Santa, és abençoada
Por milagrosamente o teu corpo gerar
O poema excelso, transcendente e milenar, 
Parido em sangue e dor na carne lacerada!

Dores atrozes que, extasiada, desmereces 
Ao teres no regaço o frágil ser que aqueces
Ao calor ímpar desse instante divinal! 

E embora desligado o cordão umbilical,
Só a morte rompe esse amarrado amor materno,
Posto que atado foi no céu plo Pai Eterno!


10/ Maio/2008
In E-Book “Sonetos Escolhidos III”, ed. Setº/2009


TELA INACABADA 
Carmo Vasconcelos


Morro nas cores dessa tela impressionista!
Vergado o corpo à dor, as mãos encarquilhadas,
Pla chuva negra que mesclaste em pinceladas
De pranto e sal, num gesto insano e pessimista!

Na turvação da mente, nem viste que a um canto,
A mirar, triste, o despautério desenhado,
Lá estava eu... ante o negrume escancarado
Do sentir d’alma do pintor em desencanto!

De pranto aguada, morre a tela inacabada, 
Pendente ao lado desta poeta desolada, 
Que intenta, em vão, colar-lhe as cores do arco-íris...

Tivesse eu a divindade astral de Osíris, 
Te ofertaria, de Hórus, o olho omnividente,
E em vez de chuva, pintarias sol esplendente!


24/Setº/2007
In E-Book “Sonetos Escolhidos III”, ed. Setº/2009 


UM NADA DE PÓ...
Carmo Vasconcelos

É, no Universo, pálida centelha
A minha voz, aos céus pedindo Graças,
Não mais que vibrações meras e esparsas,
Dos poros expelida a dor que engelha!

Impõe-se o mar com úrgicos bramidos! 
Sopra o vento em pungentes remurmúrios!
Eclodem os vulcões chispando augúrios!
Clamam almas e corpos em gemidos!

E eis-me aqui, implorando, mero grão,
Que em fútil e arrogante pretensão
Ouso chamar a mim a primazia...

Se um nada sou de pó... que em sintonia 
Co’a terra, a urze, o riacho e a semente,
Deve irmanar-se ao Todo, humildemente!


Julho/2007
In E-Book “Sonetos Escolhidos III”, ed. Setº/2009


VÉRTICE
Carmo Vasconcelos


Como não ter eu sonhos verdes e floridos,
Se, mesmo insone, é de esperança a cor fluente...
Desde a manhã, pela tardinha, e ao sol poente,
Teus eloquentes ais, nos meus entretecidos;

Se és do meu casto amor o eleito paladim,
Doirado vértice do sonho idealizado,
Da luminar montanha, o topo alcandorado,
Do êxtase pleno, o deleitoso varandim? 

Como não ires junto a mim no sonho alado
Onde as quimeras são plausíveis e palpáveis,
Isentas de elos e tabus incontornáveis;

Se é no fugaz enlace onírico alcançado
Na indefinível dimensão de morte ou vida,
Que o nosso amor se faz paixão embevecida? 


3/Agosto/2008
In E-Book “Sonetos Escolhidos III”, ed. Setº/2009


SÚPLICA
Carmo Vasconcelos

Dizei-me, Deus, que vil pecado fiz outrora,
Ou concedei-me o raro dom da omnisciência,
Para que o saiba e me redima em penitência,
E este sofrer em desamor vá logo embora!

Já fui, me lembro, irreverente e desdenhosa, 
E alguns deixei em dor d’amor, por inocência...
Se então soubera o peso ingrato da carência,
Eu não estaria hoje, de ofensas pesarosa!

Sei que, ambiciosa, no delírio me afundei...
Eu desejava o ideal! O amor maior do mundo!
E o vi nascer ... mas do meu colo, moribundo,
Partiu... E dele escassos beijos desfrutei!

Hoje, suplico-vos, Senhor, vosso perdão!
Não me deixeis neste vazio de coração!


02/Agosto/2008
In E-Book “Sonetos Escolhidos III”, ed. Setº/2009


Carmo Vasconcelos
Lisboa/Portugal
http://carmovasconcelos.spaces.live.com

 

 


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