O elogio

Um elogio conceda ao escritor
E ele estará, decerto, satisfeito
Pelo árduo trabalho que foi feito,
Pelas noites de insônia, em seu labor.

Mas ao poeta não terá valor
Um elogio, logrado por direito,
Se o verdadeiro amor foi o seu peito
Cuja satisfação provém do amor.

Mostra-se o coração numa poesia.
Quem a cria, não quer ser aclamado;
Basta encontrar alguém para o seu lado.

Também será motivo de alegria
Se, prá curar a dor que se inicia,
Um dia seu poema for lembrado.

Bernardo Trancoso 



O homem nasce, cresce, morre... e pensa
Na morte que o futuro lhe garante.
Ele não quer morrer, quer ir adiante.
Assim, mesmo à razão, cultiva a crença.

Cedo ou tarde, um desastre, uma doença,
Vai tirar desse mundo o ser pensante.
Isso faz sua fé mais importante,
Ao buscar um viver que a morte vença.

Tal procura só leva a dois lugares:
Ou luta o homem, cria a sua história,
Ou fica ouvido a história de outros lares.

Crê nele mesmo ou numa santa glória
Que tem provado, há tempo, nos altares,
Que ninguém morre, enquanto houver memória.

Bernardo Trancoso 

Natureza

Tens das pedras dureza; tens, agora,
Da noite que apavora, vã frieza.
A incerteza que tens, é de quem chora
Quando o amor vai embora; tens tristeza.

Tens, porém, chama acesa; vida aflora
Do teu peito, ó senhora; és natureza -
Da fauna, tens riqueza e quem te adora,
E da flora, bem mais, pois, tem beleza.

Só pareces não ter o dom vibrante,
O desejo constante de viver,
A grandeza de ser a cada instante,

Quando o mais importante é renascer.
Esse dom de manter a dor distante,
Em plantas e animais, vais perceber.

Bernardo Trancoso 

Por onde flor

Solidão levarei por onde for
Teu olhar, nosso amor, minha lembrança;
Ao sabor da canção, que não se cansa,
Reinará a expressão da minha dor.

Coração manterei sem teu calor,
A agüentar o calor que, então, me alcança;
Nesse amor, sem razão, inda a esperança
Viverá na paixão, por onde flor.

Bem-me-quer, e eu te quero em meu caminho;
Mal-me-quer, não me queres ao teu lado;
Bem-me-quer, mal-me-quer, caule é contado?

Há, mulher, tanto esmero em teu carinho
Que, com outras mulheres, vou sozinho,
Um poeta a sofrer e apaixonado.

Bernardo Trancoso 

Sonhos e trovas

Um grande sonhador quer acordar
No meio de um amor que faz sonhar
Prá, quando se deitar, sua alma em flor,
Desperto, ele sonhar com esse amor.

Quer mais um trovador, já quer cantar
Toda forma de amor que imaginar
Prá, quando a flor murchar e ele se for,
Seu canto inda ecoar, num sonhador.

Sonhos e trovas juntos na alegria
Que, um dia, plante fé no coração,
Ao sentimento amor, que principia,

Levando o sonhador à conclusão:
Paixão não sobrevive, sem poesia;
Poesia também morre, sem paixão.

Bernardo Trancoso 

 

 


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