Dúvida (*) 
Benedito Pereira

Todas as tardes em que vejo o sol 
Se esconder entre as serras, tão distante, 
Escuto orquestração harmonizante, 
Expressa no cantar de rouxinol. 


Questionamento faço, e o arrebol 
Transmite apenas dúvida: meu semblante 
Retrata a dor que surge penetrante, 
E sustenido muda pra bemol. 


No telhado da casa, a passarada 
Alegre dá concertos magistrais 
Pra me abalar e reduzir a nada! 


É de manhã que os mesmos divinais 
Pássaros chegam; minha alma frustrada 
Pergunta: e o meu amor?... Não volta mais? 


_____________ 
(*) "Escritos Feitos de Música", 1ª edição, 
Rio de Janeiro, Litteris Editora, 1996, pág. 26. 


Namorando (*) 
Benedito Pereira

Meu anjo, este puro sentimento 
Que nos liga demais nasceu profundo 
(Talvez das sutilezas do mundo!) 
Pra alimentar-me de ilusão -- que aumento! 


Reconheço: otimista o pensamento, 
Todo o filosofar, meditabundo, 
Surge como se fosse algo sem fundo 
--, Abismo em que de sonho me sustento. 


Devaneio, querida, não malina. 
Penso (ainda que tarde!): como pode 
Tentar-me tanto a doce e alva menina. 


Pra ti, hei de compor somente ode, 
Com o desejo, forte, que alucina: 
Que amplo clima de amor para nós rode! 


__________ 
(*) Brasília, DF, 21/03/1966. 


Nitidez (*) 
Benedito Pereira

"Há coisas que demoram pra chegar"; 
Outras há que sucedem muito cedo: 
Umas, tão lindas, vêm num terno enredo; 
Outras, tristes, nos marcam pelo azar. 


O tempo, mestre em tudo, devagar 
Vai, de nós, alterando, em tom azedo, 
A expressão que dizíamos sem medo 
De refletir: "Nunca é tarde pra amar!" 


Agora, quando estamos no final 
Da vida, percebemos que a atitude 
Dura foi totalmente imparcial. 


De nada nos valeu o: "Deus ajude!" 
Não é exato o coração, e o mal 
Jamais escolhe cor ou magnitude. 


__________ 
(*) Brasília, DF, 10/01/1967.


Otimismo (*) 
Benedito Pereira

Sim. Hoje vou dormir tranqüilamente, 
Sonhar que é minha como prometeu; 
Crer que o tempo não passa, porque meu 
Sonho ilude e conserva o amor ardente. 


Sentimento que engana sabiamente, 
Fazendo-me pensar que sou Dirceu 
Na arte de compor versos para seu 
Decote, sempre mais benevolente. 


Que este idílio prossiga, reproduza 
Toda a minha ilusão num só instante 
E não me deixe nunca a alma confusa. 


Ainda que em devaneio, ser o amante 
Que fita, rasga e despe sua blusa 
De seda e cetim, é gratificante! 


______________ 
(*)"Novos Tempos", 1ª edição, Rio de Janeiro, 
Litteris Editora, 1992, página 35.


Vai (*) 
Benedito Pereira

Aproxima-se a nossa despedida. 
Irás e hei de ficar triste demais. 
O momento chegou. E nunca mais 
Hás de voltar. Podes partir, querida. 


Se alguma chaga me ficar doída 
No peito, o tempo há de curar; jamais 
Quero rever o que passou. Os ais -- 
Que sobram -- serão restos de vida. 


Há muito que eu notava o patamar 
E esse fatal momento em que haverias 
de, aos poucos, sem dizer, me abandonar. 


Sempre foram tão negros os meus dias, 
E uma tristeza a mais (ou esse azar!) 
Não dói... Segue levando as alegrias. 


________ 
(*) Brasília, 16/02/1966.

 

 


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