EXERCÍCIO DE AMOR
Áurea Miranda


Sê teu céu e teu chão, teu sol, teu mar, teu guia;
companheiro fiel, bondoso e confidente 
– e quanto mais sorrires, mais serás contente
de ser tua mais pura e fértil alegria.

Sê teu bem e teu mal, teu sempre e teu momento,
tua delícia e teu fel, teu prêmio e teu castigo,
guardando para ti – que és teu maior amigo –
os motivos do teu mais grave sofrimento.

Ninguém melhor que tu sabe do que é esquecer-te;
ninguém mais do que tu sente a tua saudade 
– ninguém tão como tu, pois, para merecer-te.

Faze em ti teu Senhor, teu credo, tua verdade.
Mas não dês a ninguém o sabor de perder-te
como quem perde o gosto da felicidade.


APARÊNCIAS SOCIAIS
Áurea Miranda


Chegou tarde ao trabalho – então, foi dispensado:
porque os olhos vazios no fundo das olheiras
deviam-se, decerto, a uma das bebedeiras,
às quais (também, decerto...) estava acostumado.

Estômago vazio, bolsos vazios e as beiras 
dos chinelos quase um papel mal laminado, 
resvalou na sarjeta – e o corpo, ensangüentado,
deixou sobre a calçada as últimas carteiras.

Uma era a de trabalho; a outra, a identidade
– ambas também vazias: já não tinha idade
pra ser trabalhador e nem pra ser alguém...

Mas, antes de o baixarem para a sepultura,
a esposa extraiu-lhe a frouxa dentadura
que há muito não usava: “Era um homem de bem.”


SOU ASSIM
Áurea Miranda

Sou um pouco de escravo e um tanto de mendigo;
algo de menestrel e muito palhaço;
doses de bom humor, vestígios de fracasso;
sonhos que me perseguem, sonhos que persigo.

Quanto um rastro de dor fica por onde eu passo,
levo adiante a intenção de carregar comigo
as lições que aprendi nesse caminho antigo
– e, buscando mais luz, sinto que me refaço.

Deixei há muito o mapa, a bússola, o sextante
– desde que percebi que o simples ir adiante
define e satisfaz a minha identidade.

Sou pária que persiste na emoção de, um dia,
ver escrito no espaço de uma laje fria:
“Aqui jaz quem morreu de amor e de saudade.”

TAL COMO DEUS
Áurea Miranda


“Faça-se a luz!” – assim Deus o teria dito, 
inaugurando o mundo. Era o primeiro dia... 
Ele não era cego – e, então, como podia 
avaliar-se na escuridão de um infinito?

Se parece uma conclusão com ironia, 
devendo-me eu sentir com um reles proscrito, 
saibam que não me causa o mínimo conflito 
– e aliás, vai além da simples fantasia 

para entender porque vivemos aos tropeços 
– os humanos... – errando em tantos endereços, 
aos tateios, em busca do que nos seduz. 

Fez-nos o Criador à sua semelhança: 
por que não nos ocorre, ao invés da esperança, 
antecipar às obras um “Faça-se a luz?” 


HUM?...
Áurea Miranda

Se viemos do pó e ao pó retornaremos, 
que diferença faz se, ao longo dos caminhos, 
fluímos como estrofes para os passarinhos 
ou partículas vãs a que nos comprazemos?

Se viemos de embriões, que – tão pequenininhos... – 
são tão sofisticados quando, enfim nascemos, 
que diferença faz quando nos atrevemos 
a viver como pares – não, como sozinhos?

Fazemos diferença é quando contagiamos 
porções da natureza onde nos inundamos 
para contagiar a quantos possam tê-las.

Então, abra a janela e deixe de cuidados: 
por que não refletirmos nossos corpos suados 
– dando cheiro de amor ao brilho das estrelas?

 

 


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