ATRAVÉS DO OLHAR
Arnoldo Pimentel Filho
Queria tocar-lhe ao menos uma vez
Mesmo que de leve com os lábios
Mesmo através do olhar
Mesmo não sabendo nadar
Mesmo que fosse
Com o suor que evapora do meu corpo
Mesmo que não me amasse
Mesmo que não me olhasse
Queria merecer seu sorriso
No entardecer nublado
Sentindo o frio que chega com a noite
Queria abraçar seu sorriso
Mesmo que fosse a estrela do norte
Ou um corte longe do paraíso
NADA É ETERNO
Nada é eterno
Nem as vezes
Que entrei em seus olhos
Pela ponte dos meus sonhos
Nem os dias de chuva
Que a vi embarcar no ônibus
Com os cabelos molhados
Para nunca mais
Nem os muros que separam
A vida do tempo
No fim do meu pomar
Nem meus olhos
Que se fecharam
Para me abandonar
PIGMENTOS
Praça vazia
Casa vazia
As colunas para meu céu
Desmancharam na tempestade
Sonhei que estava flutuando
Sobrevoando quadros coloridos
Por pigmentos das esperanças
Que alimentavam meus anos
Meus anos se quebraram
Secaram na areia sedenta
Que culminou com meu desaparecimento
Ficaram apenas pigmentos na areia
Na praça vazia
Onde sonhei um dia
REGINA
Minha noite não tem orvalho
É carente de seus olhos
Estou num atalho
Que me levará a uma ponte distante de você
Minha noite é feita de silêncio
De fumaça
Que embaça
A janela de vidro
Minha noite não tem agasalho
Só sente o frio
Que chega com a chuva
A noite é minha tormenta
Devasta minha fantasia
Entristece minha poesia
VIDROS
Como eu poderia sorrir
Se não sei amar
Se não sei olhar
Para onde se pode brilhar
Como eu poderia amar
Se não quebrei os vidros
Que me cercam
Nos longos dias sem noite
Como poderia nadar
Se os peixes
Não me ensinaram a voar
Como poderia viver
Se meu sorriso se escondeu
Na mesma noite que nasceu
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