Amor pra vida inteira
Antonio Paiva (Cândido)


O gesto matinal do nosso abraço,
Agradecendo aos céus um novo dia,
É um verso feliz da poesia
Que vamos escrevendo passo a passo.

E o beijo ao fim dum dia de cansaço
De bocas em uníssona euforia,
Escreve a mais perfeita sinfonia
Que leva o nosso próprio compasso.

Este amor tão sentido, foi jurado,
E será cada dia renovado,
De forma honesta pura e consciente.

E há-de ser total e permanente,
Porque eu não sei amar de outra maneira
Que não seja um amor pra vida inteira.

Cândido

Foi só um sonho 
Cândido


Se eu fui, alguma vez, o teu batom:
A rubra cor que a tua boca tem,
E fui o teu olhar, doce, também,
Foi no espaço infinito da ilusão.

Se eu fui alguma vez a tua mão
Num gesto delicado a dizer: vem!
Que este mundo está perto do além
E o pecado é a nossa salvação.

Tu foste a flor de belos sentimentos
Que perfumou os loucos pensamentos
Das minhas madrugadas irreais.

Foste o ponto mais alto a que cheguei
Foste o sonho mais lindo que sonhei
Mas foste só um sonho nada mais.


Cândido

Páscoa
Cândido


Jesus fora julgado e condenado,
Naquela Sexta-feira de paixão.
Uma lança vazou-lhe o coração
E, depois, ainda foi crucificado.

Naquela cruz, no alto do montado,
Agonizante, em sua introspecção,
Orava ao pai, pedindo-lhe perdão,
Porque a sua missão tinha falhado.

E aquela sacrossanta criatura
Ressuscitou, segundo a escritura,
Elevando-se a outra dimensão.

E o Judas que julgavam enforcado,
Ainda anda por aí, bem instalado,
Gerindo os tais dinheiros da traição.


Cândido


Sussurrando 
Cândido


Eu fui um riso em cais de despedida
Que as lágrimas que havia de chorar,
Guardei-as cá no fundo do olhar,
Para, se um dia, houver outra partida.

Eu era um verso branco sem medida
Que andou de boca em boca a procurar
O beijo com que iria soletrar
O poema maior da minha vida.

Só tu com esforçada sedução
Conseguiste arrastar meu coração
À profanada pedra dum altar.

Pegaste o verso branco tresloucado,
Que andava pelas bocas do pecado,
E deste-lhe o teu beijo pra rimar.


Cândido


Travesseiro de penas
Cândido


Vestia-me de sonhos, que tramava,
Para o meu carnaval de fantasia
E ia ao lugar aonde ela vivia
Que minha mente louca imaginava.

Sobre os lençóis que a noite amarrotava
Meu corpo, abandonado, adormecia
E a ilusão que sentira se esvaía,
Quando a chama do sonho se apagava.

E na minha cabana junto ao rio
Pintei os versos loucos do meu cio
Com cenários de ninfas seminuas

Mas na cama saída do tinteiro
Ainda há entre nós um travesseiro
Cheio das minhas penas e das tuas. 


Cândido

 

 


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