Matar a solidão

Matar a solidão, é coisa que não faço.
Tentar não adianta, eu sei que não consigo.
Amante dela sou, como você, amigo,
Como você, dormir prefiro em seu regaço...

Matar a solidão, como essa gente mata!
Não é para nós dois. Macula essa pureza
De quem nasceu poeta, afeito à singeleza
Que dorme numa flor ou canta na cascata.

Se estamos sós, assim como eu me encontro agora,
Tranqüilo, aqui no sítio, onde a beleza mora
Em meio ao pipilar, feliz, da passarada!...

Peguemos duma pena. (É muito mais decente)
E, enquanto os outros fremem, delirantemente,
Façamos um poema à nossa bem-amada. 

Antonio Lycério Pompeo de Barros 



Solidão interior


Imensa é a solidão que vem das matas
E aquela que se estende nas planuras!
A que provém do céu, lá nas alturas, 
Ou que murmura, além, entre cascatas!

Aquela que contorna e envolve os rios
E vai pousar, tranqüila sobre os lagos!
Que a brisa traz às praias, entre afagos, 
A nos tornar mais tristes, mais vazios...

Grande, demais, é a solidão do mar!
Da tarde que desmaia a soluçar,
Buscando no horizonte seu jazigo!

Mas, a maior, a solidão mais triste!
A mais profunda solidão que existe,
Não vaga por aí... Mora comigo!

Antonio Lycério Pompeo de Barros 


Inquietude


A naufragar me sinto a cada instante, 
No mar de inquietações que me crucia...
Nasceu minh’alma p’ra viver errante,
Ou sucumbir em funda nostalgia...

Deter não queiras, nunca, a correnteza...
O furacão que, furioso, corta,
Enchendo de terror e de tristeza
A humanidade e a natureza morta!

As águas se acumulam... Geme o vento...
Minh’alma dentro em mim já não agüento, 
E na amplidão meu pensamento erra...

Rompa-se o dique... O furacão liberta...
A porta de minh’alma deixa aberta...
Ou rola o corpo, inerte, sobre a terra...


Antonio Lycério Pompeo de Barros
Grandeza


Por quê soberba e fria indiferença
Ao semelhante nutres?! Por ventura,
Tu vais além de humana criatura,
Reinando só sem que ninguém te vença!?

És, por ventura um pequenino Deus?!
És soberano, és rei ou és senhor
De tudo que na terra existe?! A dor
e o sofrimento são para os plebeus?!

Enganas-te, senhor. A nossa origem, 
O fim que nos aguarda e a vertigem
Da morte que há de vir, um dia, a todos...

Tudo nos diz e afirma, certamente:
Viver devemos mui humildemente,
Grandeza é ilusão, meros engodos...

Antonio Lycério Pompeo de Barros 


Soneto I
A meu filho Waldir


Falaste-me do céu e me apontaste o céu
Num lindo por de sol de um dia claro e lindo!...
O sol vermelho e já sem brilho ia caindo
Exangue, a sucumbir em purpurino véu!...

Era bonito e triste aquele tom febril
De um sol a desmaiar nervoso e sanguinário, 
No céu que se tornava, aos pouco, um lapidário
De mil constelações num palco azul de anil!...

Eu que aprendi a amar o Deus sem templo. Livre...
O Deus ternura! O Deus bondade! O Deus que vive
A verdejar o campo e a opalizar a lua!...

Fitei-te, filho meu... Com que prazer o fiz...
És a manhã radiante em meu ocaso  gris
É meu o pôr de sol... A madrugada é tua... 

Antonio Lycério Pompeo de Barros

 

 


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