Velhos tempos
Angela Togeiro
Que saudades eu sinto ao ver você chegar,
Em casa, chamando-me “bem”. Noutro momento
Abrir a geladeira e cerveja pegar
E me beijar, se sou de sua alma alimento.
Que saudades sinto de a gente caminhar
Pela praça em frente do nosso apartamento,
Onde flores você costumava apanhar
E, de novo, vir me pedir em casamento.
Que saudades eu sinto da gente brincando
Com os nossos filhos no parque ou no jardim,
Mal os domingos estivessem despertando!
Quando a gente comia algodão-doce e ria
Sem pensar que tudo podia ter um fim.
Que saudades eu sinto da gente de um dia!
Ai, Minas Gerais...
Angela Togeiro
Ai, terras da minha Minas Gerais...
Todo o maná sagrado da montanha
Indo sumindo em descaminhos, tais
Mudas cultivadas de vasta amanha.
Inundam terras homens cabedais,
Geo-ecocídio, nato – exaurem a entranha.
Urge abafar perdas sem funerais,
...E escorar-se paisagens na barganha!
Lento o maná se esfumaça ao poente.
Tamanha cobiça pelo dinheiro
Oculta do hoje o futuro doente.
Rica e frágil a Terra do mineiro
Geme assolada ao poeta silente...
Agonizam juntos o tempo inteiro.
De nada adiantou
Angela Togeiro
De nada adiantou querer me guardar,
ser quem a um outro amor não se entregou,
quem outras bocas beijar evitou,
quem reprimiu o desejo de amar.
De nada adiantou ter-me preparado,
ser alguém pra viver sempre ao teu lado,
fresca sombra onde o corpo se refaz,
suave bálsamo onde a alma se apraz.
De nada adiantou ficar a sonhar,
ser corpo que teu desejo sacia,
ser espírito que te alegra o lar.
De nada adiantou loucamente amar,
e ser cúmplice, amante, estrela-guia,
se um dia me abandonaste no altar.
Despedidas modernas
Angela Togeiro
Partiste. Nem olhaste para trás.
Nem sequer nós nos dissemos adeus,
E nem mesmo fitaste os olhos meus
Por um instante mesmo que fugaz.
Sequer levaste junto a minha paz.
Nenhum sentimento de fariseus
Dos que nem ao menos temem a deus
Entre nós dois de existir foi capaz.
Foi-se o a dois. Paixão sem chama de vida
Sem choros, brigas ‑ não foi de verdade,
Nem ficou de nós uma alma partida.
Sequer ilusão de felicidade.
Insípida e vazia despedida:
O ‘ficar’ não combina com saudade.
Intimidade com Deus
Angela Togeiro
Para louvar Deus tive de ficar
sozinho com minha alma e meus segredos,
enfrentar meus pecados e meus medos
e de joelhos começar a orar.
Para louvar Deus tive de cantar
cantos de ninar, saber dos brinquedos
das crianças, dos homens contar dedos,
aprender a magia do rezar.
Para louvar Deus tive de sorrir
ao Deus que está em mim, solitário, alfim
àquele que de mim não vai partir.
Para louvar Deus tive de saber
apenas o que ele espera de mim,
o que praticar para O engrandecer.
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