SONETO DA GESTAÇÃO
Ana Bárbara de Santo António
Gestação sentida de vontade mental
Alagando pele humedecida de desejo
Tenho te assim por dentro tão carnal
Célula carícias fusão o olhar o beijo
Entranhado em mim corpo fundido
O mar embrião dorso vagas de sal
Orla dos olhos como choro sentido
Ventre praia colina de crina dorsal
Palavras soltas crescem melancolia
Ideias loucas se desprendem vagas
Nasce enfim o mar em noite e dia
Prenhe de sossego ternura tristeza
Praia deserta que o pensar guardas
Na solidão de estranha incerteza
SONETO DA MADRUGADA
Foste abrindo passos na areia lavrada
Sentindo a maresia no teu rosto tocar
Olhando as ondas na maré incendiada
Sobre o mar sereno a luz a esvoaçar
Sabias que me encontravas ali deitada
Madrugada dando-me areal meu leito
Esperando a manhã de fogo clareada
Como se dia acontecesse no meu peito
Eras tu e eu numa solidão frente ao mar
Os dois perdidos olhando o azul oceano
Dentro de nós pensamentos a naufragar
Eras tu e eu a terra e o céu mar fundidos
Mareando nosso olhar confuso estranho
Os dois em maré-cheia de vagas sentidos
SONETOS DOS PASSOS
Vou caminhar sobre teus passos na areia molhada
Num gesto simples trazer-te morna luz do universo
Como a estrela perdida do firmamento resgatada
Para iluminar caminho entre palavra e este verso
No momento em que as palavras resgatadas
Se ouvirem soando iluminadas pelo caminho
Serei teus versos em passos e caminhadas
Chegando inculta de sentidos ao teu destino
Possa então morrer a poesia em meu regaço
Porque já te tive sim de sentidos e sentimento
E fui a luz seguindo palavra a caminho a passo
Possa então morrer a poesia em todo meu peito
No palpitar sentido de tão estranho pensamento
Que me acompanha de passos no sagrado leito
SONETO DA NUDEZ POÉTICA
Queres, nos versos despir-me como o poema
E toda eu nua de mudas estrofes diante de ti
Deixar-me confusa e baralhada num dilema
Despida por esta demente poesia que senti
Queres-me na intimidade verso no segredo
O desvendar cada sílaba métrica desnudada
Entre o olhar imenso tímido sorrindo medo
E a face poética da saudade a ficar corada
Deixo cair minhas vestes no teu pensamento
Descubro a nua pele em teu tímido desejo
Deixando pouco a pouco o esquecimento
Subtilmente desprendo as palavras
Dos versos possuídos olhar e beijo
Esquiva demência de todas as mágoas
SONETO DO MAR ADENTRO
Deixarei vento trazer areia molhada
Moldando dunas sobre a praia peito
Lençóis marinhos de bruma salgada
Cobrindo-me vagas em húmido leito
Deixarei o sol aquecer a azul manta
Brilho líquido sobre ninho aquático
Cobertas de espuma brancura tanta
Onda em fúria doce marear estático
Deixarei o céu fazer-se em mim mar
Vaga mais rebelde possa acontecer
Todos os sentidos me deixe libertar
Em onda gigante na praia eu morrer
Vento chuva como lágrimas maresia
Na morna loucura desta praia deserta
Possam murmúrios mar ser sinfonia
A praia sentida num olhar imensidão
Vaga uma a uma murmura secreta
Mar adentro em mim húmida solidão
Ana Bárbara de Santo António
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