Vício
Maria do Rosario Bessas

O vício é como um laço,
Onde o nó que aperta
É uma forca que liberta.
É como um passo
Que a gente sabe que é falso,
Mas que mesmo assim,
Insistimos em dar.
Medo e prazer,
Duas pragas perversas
De mãos dadas,
Sempre a nos seduzir...
Têm forma de lágrimas,
Mas nos iludem
Que vão nos ensinar a sorrir.
O vício é a praga 
Da miséria sem preço,
Mão redentora dos covardes,
Que sempre perdem a luta.
O vício é sempre o fim
Da vontade própria,
Uma estrada sem volta,
Que às vezes a gente pega sem ver
Que o destino, é um precipício.



Sobre mães e feras
Maria do Rosario Bessas


Quisera eu poder entrar no coração de certas mães.
Queria entender onde se esconde tanta frieza,
Ou quem sabe, onde se abriga tanto ódio,
Que faz com que suas mãos corajosas,
Despejem o fruto de seu ventre no lixo,
Em lagoas, nas soleiras de portas fechadas,
Na escuridão do asfalto frio de uma rua.
Mas não poderei saber jamais,
Porque não há como entrar num lugar que não existe,
Pois por maior que seja a pobreza,
Por pior que seja o desespero,
Quem tem um coração de mãe,
De seu filho, nunca desiste.
As feras jamais abandonam seus filhotes.
Estão sempre com as garras e dentes afiados,
Para defender com a vida a sua cria.
Mas muitas crianças não têm sorte, 
Nascem de úteros fecundos ,
Mas que na certa, de mães não são.
São filhos de bestas feras,
Que não sabem o que é ter coração.
Alguns, às vezes são guardados por anjos,
Que põem alguém no seu caminho
E passam a fazer parte do mundo.
Outros, fazem o caminho de volta,
E vão outra vez ser anjinhos.


A dor da fome
Maria do Rosario Bessas

A fome é a maldição do homem...
Por ela, ele rasteja, se humilha, se vende.
Mas a fome não se aplaca só com o feijão.
O sonho é o prato mais caro,
Que às vezes, apesar de farto,
Não é capaz de saciar.
Acabar com a dor que corrói o corpo
É possível com o pão.
Acabar com a dor que corrói a ganância,
Às vezes é sonho em vão.
É essa a fome que mata,
A fome que dizima,
Que apodrece a alma do homem.
Benditos os mendigos
Que estendem as mãos
E devolvem sorrisos em troca de grãos...
E malditos os que se vendem por privilégios,
Que se corrompem por regalias
E comem com as mãos sujas...
Nunca ouvirão a voz da misericórdia...
E jamais dirão Deus lhe pague.



Bicho homem
Maria do Rosario Bessas

O homem é bicho.
Bicho que mata a cria,
Que mata a mãe,
Que mata o pai,
Que abandona a família.
O homem é bicho
Que se sente mais homem
Com uma arma na mão.
É bicho que derrama sangue,
Que mata por riqueza,
Que mente por fraqueza
E constrói armadilhas de morte
Para dominar o próprio homem.
O homem é bicho que espreita
A fraqueza do próprio homem
E marca territórios
Com o cheiro de sangue.
O homem é bicho que se vende
Que sempre esconde o que sente.
Ao contrário dos bichos
Que lambem a cria,
Que se respeitam
E que se aliam
Para preservar o bando.
Às vezes os bichos
São mais dignos que os homens.
E os homens, muitas vezes,
São indignos de serem chamados bichos.
Os homens quase sempre são feras.
Os bichos, nem sempre são.


Vida digital
Maria do Rosario Bessas

Ah... Como eu queria
Só usar palavras doces,
Bem cálidas, igual ao mel...
Mas dizer, não sei o que,
Neste mundo que de repente,
Ganhou linguagem nova,
Feição fria,
Virou ficção,
Tecnologia.
O menino se trancou no quarto
Não brinca mais.
A fantasia já vem pronta,
Na ponta dos dedos
Que correm soltos,
Nas mensagens virtuais.
A mulher não se mostra mais.
Trancou-se no mundo da fantasia
Dos personagens que correm loucos
Diante da tela colorida,
Corrompendo seus sonhos,
Manipulando sua vida.
O homem não compartilha mais.
Trancou-se na estatística bruta,
Na guerra digital
Que ele enfrenta no cotidiano
E violenta sua índole.
A família é silêncio.
A casa é estática.
A palavra é fria.
O amor é tema de novela,
Enquanto a intriga prevalece.
A corrupção invade o noticiário.
O sangue corre lento
Na violência corriqueira.
Vez ou outra,
Um sonho de consumo
Se destaca na tela.
Esse é o mundo digital,
Onde as pessoas se escondem,
Onde a vida é um ritual
De hora marcada.



Imagem
Maria do Rosario Bessas

Eu me desnudo
Diante do espelho
E me vejo escondida
Entre as marcas do tempo.
Como é impiedosa
A mão do amanhã
Que passa tão rápida
Em nossas vidas.
Passa invisível aos nossos olhos,
E deixa cicatrizes
Escondidas no espelho...
E quando nos confrontamos,
Ele e eu,
minha imagem se confunde
com o retrato de alguém,
Que me espera num futuro
Que eu julgava longe.
Só então eu percebo
Que o amanhã chegou,
E eu vivi tão pouco o hoje...

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  17.01.2012  

  

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