|

EU QUERIA
José Moreira da Silva
Eu queria ver o mundo livre
da ‘praga’ dos corruptos;
eu queria ver o homem ter vergonha
de não ser patriota;
eu queria ver o desprezo total
daqueles que se vendem
enquanto seu irmão reclama por justiça.
Eu queria ver a purificação da própria lama
em que se digladiam os micróbios sociais;
eu queria reviver os imortais
e acender no povo a chama - liberdade!
Eu queria ver meu corpo ser cremado,
e da cinza nascer um novo homem
em pedra e bronze, para as novas gerações nele se espelharem.
Sim, é melhor morrer por uma causa
do que viver covarde a vida inteira
entre déspotas e antropófagos da própria humanidade,
inimigos de toda a liberdade,
que é o maior bem do ser humano.
Eu queria viver mais alguns dias
até ver a juventude libertada
da mira dos tiranos, ‘robots’, cujos comandos
não sei onde se escondem
mas agem aqui como perfeitas máquinas:
queimando as selvas,
envenenando as águas,
industrializando a doença e a miséria.
É hora de gritar,
de acender a chama do amor
por aqueles que de nós são próximos,
seguindo a lei de Cristo,
sem medo do terror.
É preciso evitar os extremismos,
mas sentar à mesa dos poderosos e dizer:
- vocês estão cavando a própria sepultura,
banqueteando-se da carne dos irmãos,
esta dança macabra sobre nosso esqueleto,
este sugador da nutrição e do saber,
vai aprimorar em nós um outro homem,
é um modo de fazer o homem-fera.
É fácil dominar um povo rude
acionando um mágico botão,
dando pão para mantê-lo apenas vivo,
força do trabalho,
homem solto em plena escravidão.
Porto Alegre, 07 de agosto de 1983.
LAGRIMAS DE AMOR
José Moreira da Silva
para Ieda Cavalheiro
Quando o tempo passar
quando tudo terminar
eu não for mais eu
tu não fores mais tu
a saudade pendurada
nos galhos das árvores
ouvirá o canto dos passarinhos
e chorará lágrimas de amor.
Porto Alegre - Primavera de 2010
MULHER DO LAR
José Moreira da Silva
Sobre os cabelos grinaldas, lindas flores,
frente ao espelho se mira a bela jovem,
preparada para a noite dos amores,
vai semeando suspiros que comovem.
Diz a si mesma: sou qual deusa pastora,
espargindo flores pelo campo afora,
e, serei, no altar, a noiva sedutora.
- Vinde a mim, amado, nessa nova aurora!
Após as núpcias, querida e adulada,
Corre o tempo, vem as frias madrugadas,
Surgem rugas, os olhos perdem o brilho.
Mesmo assim, mulher e mãe, muito feliz,
Alcança tudo que neste mundo quis:
- Marido, filhos e netos no estribilho.
À PRENDA AMADA
José Moreira da Silva
Nessas manhãs chuvosas de verão,
brinca o sol de esconder-se no horizonte,
somente a luz divina e fulgurante
dos teus olhos é fonte de emoção.
A chaleira chiando no fogão,
nos diz que vai chegar o belo instante
de preparo do amargo chimarrão,
antes que o sol, ao longe se levante.
O que tem demais na pampa larga,
além de rancho e da mulher amada?
- Somente o pastiçal, o gado, o plano,
a beleza do sol nascendo ao longe,
a luz de teu olhar é voz de um monge,
exclui da vida todo desengano!
DESPEDIDA
José Moreira da Silva
Aonde o amor se foi,
sem ao menos um adeus,
nesse dia tão cinzento?
Murmura a voz do vento,
nas vidraças da s janelas,
foià procura de alguém,
que outro afeto igual lhe dê.
Um pendular dolorido
marca o correr das horas;
falta algo na costura da alegria
tudo que se foi com ela;
falta nela outra cousa,
tudo que ficou comigo,
Em sombra está minh’alma
e vagamente chora.
II
A noite vem supirando
ausência e escutidão;
a saudade um manto negro,
espectro ficou de algum fantasma,
não á sorriso aberto,
nem olhares cintilantes;
o quarto é tumba solita,
a cama, um glacial,
em sombra está minh’alma
vaga no tempo sem rumo!
Porto Alegre/RS, 10/09/2004.

PRÓXIMO
BIOGRAFIA
|