TRISTEZAS…
QUE A BRUMA ME ESCONDE
José Carlos da Silva Primaz


Olhei lá p’ra longe, para ver o que a bruma escondia,
Mas por mais que procurasse, no mar azul já nada via,
Nem tão pouco as baleias, lá ao longe apareceram…
Pois será que até o tempo, contra mim está comungando…?
Ou só quis esconder-me a tristeza, para não ficar olhando,
Que lá nos mares, os golfinhos, também já desapareceram…?


E entre a tristeza recordo, o que os meus olhos lá viam,
E o quanto as crianças inocentes, de alegria, sorriam, 
Ao verem os golfinhos, brincalhões, lá na água a saltar…
E as baleias majestosas, sulcando as ondas adormecidas,
Que os homens na sua ganância... de mentes embrutecidas,
Dos mares azuis, pouco a pouco, conseguiram exterminar. 


E tudo isto eu sinto, com a tristeza de quem nada pode fazer,
Senão apenas, estes meus simples poemas escrever,
E que ficarão aqui sozinhos, acompanhados pela solidão...
Pois a minha alma... esta minha alma, com tristeza irá partir,
Sabendo que as crianças do futuro, as belezas não vão sentir,
E as imagens do passado só irão ver… na sua nova televisão.


ANDEI 
PERDIDO NA NOITE...

Andei perdido na noite... pelas ruas e vielas,
Sempre à espera de vir a encontrar nelas,
Alguém, que em fado, os meus poemas quisesse cantar...
Mas de todos aqueles, de quem me fui aproximando,
Logo me disseram que já outros fados estavam cantando,
E que os meus poemas, certamente, não lhes iam interessar.


Triste, com as respostas que todos me estavam dando,
Eu p’ra casa, desanimado, fui andando,
Sem mais pensar nos meus poemas, como fados p’ra cantar...
Só que não era isso, que o destino me tinha reservado,
Porque quando regressava para casa já cansado,
Alguém me chamou, e pediu, para os poemas lhe mostrar.


E eu, que de tristeza, já os estava para rasgar,
Fiquei feliz, mas ao mesmo tempo admirado e a pensar,
Porque o destino, de mim, estava mostrando tal afeição...
E foi então, quando aquela jovem, os meus poemas cantou,
E logo uma guitarra, vinda não sei de onde... a acompanhou,
Que eu afinal senti... o que tem sofrido este velho coração.


CUIDEM-SE OS RICOS…
QUANDO A POBREZA CRESCER

Caminho por cima da água suja, que as poças invadiu,
E vejo as crianças despedindo-se, do barquito que partiu,
Lá p’ra longe, para o oceano que a sua imaginação criou…
Pois só quem nos bairros da lata vive, e a pobreza conheceu,
E quem nesta pobre vida… já nada mais tem cá de seu,
É que pode sentir a miséria, que a pobreza lhes proporcionou.

Pois lá pelas ruas, de casas de madeiras velhas construídas,
As ruas são bem tristes… pois nem o alcatrão lá chegou…
E só a pequenada descalça, de roupas rotas vestidas,
Fazem da algazarra o colorido, que aos dias tristes animou.

E a riqueza que vive lá nos palácios atrás de muros escondida,
Mal sabe o que lhe irá suceder quando a pobreza perdida,
Não tiver mais comer… prós seus filhos alimentar…
Pois os ricos, que nisso contribuíram, podem-se ir preparando,
Porque as ondas da pobreza estão dia a dia aumentando,
Acabando por invadir as casas, onde a riqueza está lá a morar.


ESTE AMOR ... QUE RECEBI

Deste-me o vento, para de Ti sempre me estar lembrando,
Sabendo que a minha alma é feliz, quando ele fica entoando,
Aquelas sinfonias… que só o vento sabe entoar...
E ainda não satisfeito, com tudo o mais que a mim me deste,
Até junto de mim, lá do mundo infinito, Tu trouxeste,
Aquele anjo, que do céu desceu, para aqui me acompanhar.

Deste-me os campos, na Primavera, de verde todos vestidos,
E no Outono, pintados de tons ocres e amarelos coloridos,
Como se o sol, a terra quisesse de mil tons, toda ela enfeitar...
Mas Senhor... de tantas coisas belas que p’ra mim mandaste,
Ainda dos meus sentidos, no Teu amor, Te lembraste,
Pois deste-me o cheiro das flores, para o meu olfacto inebriar.

Deste-me o sentir da paz, que o meu coração faz descansar,
E também a alegria... que logo dentro de mim ficou a morar,
Não deixando mais sair de mim, o êxtase da Tua lembrança...
E se em algum momento, a vela do amor em mim se apagar,
E também a vela da mística fé, na vida, me quiser deixar,
Nunca faltará em mim o calor da vela acesa da Tua esperança.

Pois, na vida, tantas... mas tantas coisas Deus me ofereceu,
Que todo o meu ser, Dele nunca mais se esqueceu,
Esperando por aquele momento, em que esta vida irá deixar...
Por isso, neste infinito mar, os pensamentos, fico lançando,
Desejando que no barco da aventura, eles partam navegando,
E onde o mar azul toca o azul do céu, lá Te possam encontrar.



MÃOS ... 
QUE SE ESTENDEM 

Vejo rostos macilentos... já de si envelhecidos, 
Em corpos bastante magros... de tal forma mal nutridos,
Olhando p’ra nós e pedindo... com a longa mão estendida,
Que de tal forma fico parado, sem já da vida saber,
O que por estas crianças e velhos, na vida poderei fazer,
P’rós ajudar nesta triste sociedade que de valores está perdida.


Olho p’rós olhos que vejo... e neles só vejo tristeza,
E do belo que a natureza tem... p’ra eles já não tem beleza,
Porque na vida o que viram... já em nada eles irão acreditar,
E nesta vida que no tempo está correndo, eu só vejo podridão,
Pois em cada dia que passa, maior fica a solidão, 
E eu... sem saber o que fazer, ou como os posso ajudar.


E isso me torna infeliz... sem saber o que fazer,
Sempre à espera d’alguma coisa... que possa vir acontecer,
Que torne a vida diferente... p’rós que venham a seguir...

Então este coração se acalma, e do meu olhar sai a tristeza,
Porque esta alma sofrida, ainda quer ter de novo a certeza,
De que muita coisa irá mudar... antes da minha alma partir.

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  07.02.2011  

  

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