PROMESSA ESTILHAÇADA
Sílvia Mota


Fiquei a te esperar, ao rastro de uma estrela,
guardando-te a maçã que trago junto aos seios,
pois nela cravarias teus dentes, mil anseios,
salvando em mim, fiéis, meus bicos de donzela.

Então, ofereci, meu corpo à ilusão,
só para ouvir o som divino da promessa,
pois vi o teu amor, a repousar, sem pressa,
ao gosto do pecado e à luz do coração.

Deixaste-me a esperar, em vão, no quarto escuro,
olhei-me, toda nua, perdi-me na paixão,
rugi ao teu sabor, usei-te em minha mão.

Adormeci chorando e em sonho obscuro,
sonhei e, na quimera, ainda em mente sã,
roguei aos deuses meus, mordesses a maçã!



NENHUMA PRIMAVERA


Nenhuma primavera exibirá a puerícia
da flor do meu sorrir. Se em rimas te venero,
ninguém desvendará esta espectral delícia,
que me reluz em luz, quando ao te ver te quero.

Nenhuma primavera exalará o perfume
saliente em mim sensual. Se me requebro em dor,
ninguém acoitará todo este orvalho em lume,
que escorre do prazer, que te ofereço em flor.

Nenhuma primavera extremará, tampouco,
o canto abrasador do meu deleite rouco
e o rito em soturnez desta afeição sem fim.

Nenhuma primavera arriscará enlaçar,
ao brilho de uma estrela ou entretom do mar,
o ambíguo despudor que se depura em mim.



EU SOU SÓ A MULHER SÓ


Eu sou só a mulher que de te amar foi chama
e, numa sanha insana, arfou aos teus apelos,
babou-se no teu ser, enfureceu-se em dama,
secou-te no negrume ardente dos cabelos...

Eu sou só a mulher que se adornou de ti
e, em sacrossanto véu de inebriadas flores,
agasalhou-te o corpo, em som de colibri,
frente à pagã paixão de todos os fervores...

Eu sou só a mulher que te acendeu anseios,
premiu na tua boca, estrépita e menina,
o leite adocicado e abrasador dos seios...

Eu sou só a mulher que te perdeu no pó,
amou-te até viver e, em deprimida sina,
em ti morreu de dor e se esvaiu tão só...



PROMESSA INFAME(?)


Prometo-te beijar, o tempo inteiro
e, nua de sol, cabelo solto ao vento,
arder-me nesta língua, fogo arteiro,
mostrar-te o tempo inteiro, meu talento.

Prometo-te lamber, o vil recanto
e, no arrebol, profana, em véu de flores,
amar-te enlanguecida, erguer teu manto,
sentir no vil recanto, teus sabores.

Prometo-te domar, ser teu cavalo
e, ao leito do segredo, ao meu embalo,
de dor em dor, assim, ver-te acordado.

Prometo-te abraçar, em cada esquina
e, ao céu dos deuses, ser tua bailarina,
que ao palco do prazer dança em pecado!



COMPOR POEMAS


Compor poemas é um ato ingênuo e forte,
mas não é deflorar o branco do papel,
riscar palavras vãs, postadas pela sorte,
como se fossem grãos cedidos a granel.

O verso há de conter lirismo, canto d’água,
navegue na alegria, ou na cadência triste,
que seja graça, audaz, que seja afeto ou mágoa,
sobeje de emoção - sem isso nunca existe.

O verso há de conter os sonhos do arco-íris,
os sons da bela aurora, a dor de cada ocaso,
a mais bela virtude – é Vida incendida!

Compor poemas é causar prazer à Íris,
não é delírio vão, bradar de ódio raso.
Poesia é arte viva e até na Morte é Vida!



REQUINTE


Enrola teu pensamento
nos cabelos soltos
dos meus versos
e faça deles a crina
da tua montaria.

Chicoteia cada rima
escondida no silêncio
do meu canto
e rasga a blusa sensual
da minha poética.

Beija as verdades ocultas
nos buracos guturais
do meu corpo
e morda cada palavra
das minhas mentiras.

Encosta teus apelos
na parede nua e crua
da minha inspiração
e arromba as dobras nocivas
dos meus segredos.

Uiva teus uivos todos
na animália exangue
do meu estro solto
e afoga os lumes incendiados
das minhas crepitações.

Afina a ponta do lápis
nas alamedas trôpegas
do meu sentir e, se errei,
reescreva meu poema livre
na cadência das estrelas.
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  30.03.2010  

  

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