A médica glacial
 
Como convém a toda moça precavida (e esse é o lado divertido da história), e por força de uma sucessão de machucados durante a prática de alguns esportes (esse é o lado trágico), reservei dezembro, entre outras coisas, para fazer um check-up de saúde. Meio contrariada, é verdade, porque me dá arrepios só de imaginar uma agulha entrando no meu braço para coleta de sangue, muito embora não seja ‘hagazenta’ - como se classificam no jargão médico as pessoas que fazem fiasco por nada ou por coisa pouca.
 
Pois bem. Ainda não terminei todas as consultas e exames e espero fazê-lo confirmando a expectativa de que está tudo bem, como é de costume. Mas já coletei situações e fatos interessantes, pelo menos ao olhar literário que busca no cotidiano inspiração para contos, crônicas, poesias, enfim... Não vou falar da gineco simpática e interessada em pôr em movimento sua vida amorosa, nem da dermato querida preocupada com o andar da humanidade (para o caos), nem tampouco do médico que faz piada sem graça na expectativa de quebrar o gelo. Até agora, quem mais me chamou a atenção foi a pneumo glacial.
 
Glacial. Isso mesmo... Sabe aquelas pessoas que guardam quilômetros de distância das outras, mesmo estando a menos de um metro? Então. Algumas práticas dela, durante a consulta: aperto de mão e nada de um, dois ou três beijinhos; apenas palavras relacionadas ao tema em questão (meu sistema respiratório) e em tom baixo e grave; e nem um esboço de sorriso a um comentário descontraído. Ah, temperatura do ambiente a uns dez graus (acho) e consulta relâmpago, muito embora o atendimento tenha acontecido via convênio. Sem falar numa ligeira contrariedade diante do meu comentário de que não havia entendido a letra dela e precisaria pôr legenda na solicitação de exames para que eu soubesse o que dizer na hora de ligar aos hospitais e laboratórios agendando (a propósito: minha letra e de 99,9% dos jornalistas que conheço é parecida com a dela).
 
No meu imaginário, já construí dezenas de hipóteses para a mulher ser tão mal-humorada... Evidentemente, pode ser algo esporádico, motivado por algum problema no dia. Exemplos: talvez tenha brigado com o marido, ou recebeu a notícia de que o filho não passaria de ano no colégio, ou então bateu o carro, ou teve algum problema de estômago e estava indisposta e com TPM (tensão pré-menstrual), TDM (tensão durante a menstruação), ou TAM (tensão após a menstruação). Mas talvez possa também ser algo crônico, como por exemplo: é o jeito dela.
 
Eu aceito a justificativa de que é o jeito dela e também não tenho nenhuma queixa quanto à qualidade técnica de seu trabalho. Mas da mesma forma que pra projetar prédios é preciso gostar de escalas e cálculos; pra escrever em jornais e revistas é preciso gostar de palavras; e pra dar aula nas séries iniciais é preciso gostar de criança; pra ser médico é preciso gostar de gente! Será que ela gosta de gente?
 
Uma amiga minha, longe dos devaneios literários, acha que não é esta a questão e tem um diagnóstico mais simples: a pneumo não gosta do que faz e talvez tenha escolhido esse curso pelo status da profissão, ou pelos rendimentos normalmente interessantes, muito embora hoje em dia já não seja mais ‘grandes coisas’, como diz minha amiga, ser médico. Ela vai além: conjecturou sobre a possibilidade d´eu querer um atendimento mais “querido, fofucho, migucho”, porque, como sou de origem italiana, esse é o meu jeito.
 
De qualquer forma, vou voltar lá no consultório da pneumo glacial. Pode não parecer, mas gostei do trabalho dela. E tem mais um motivo: até agora, nesse conto, só identifiquei o personagem... Precisarei de um enredo, de um desenrolar, e quem sabe uma próxima consulta seja a oportunidade!
 
Sandra Veroneze

                    

O amor
 
 
“Por amor e piedade, nenhuma falha ficará sem punição”. A frase, não necessariamente com estas palavras, mas com esta proposta, ouvi em uma aula de filosofia à maneira clássica. O instrutor se referia à deusa egípcia Sekhmet, deusa do carma.
 
“Por amor e piedade, nenhuma falha ficará sem punição” me parecia tão ilógico. Amor e piedade pressupõem perdão, pensava eu. E não estava errada. Porém, conforme as orientações do instrutor que se seguiram, a nenhum ser humano pode ser negado o direito de se redimir, e não havendo remissão fora de si próprio, àquele que cometeu a falha cabe compensar. As formas são duas: pelo amor ou pela dor, teoria esta também budista.. E como estamos em uma fase infantil do desenvolvimento da consciência humana, tanto mais comum pela dor.
 
A chave na proposição não é o castigo, mas a ‘compensação’. Pela lei do carma, toda dor que alguém provoca é uma dor que ele próprio provará, para tomada de consciência e então uma nova postura na vida. O único problema é que falhamos e machucamos sem a devida atenção e percepção dos fatos e a cada dia aumentamos nossa contabilidade de dor a ser sentida no futuro. E quando a sentimos, sem ter consciência do motivo cármico, é muito comum nos sentirmos injustiçados.
 
O amor é um tema interessantíssimo. Erich Fromm o abordou com maestria, no livro “A arte de amar”. Os condutores espirituais da humanidade, como Jesus Cristo, Buda e Krishna também nos apresentam verdades lindas sobre o mais nobre dos sentimentos humanos. Duas formas de amor são a tônica de suas teorias: o amor à sabedoria e o amor à humanidade.
 
O amor à sabedoria leva cada um a investigar o universo, suas leis e movimentos. Propõe um esforço para compreensão das verdades absolutas, do transcendente, do que está por trás de toda essa engrenagem que se põe a girar a cada dia. E ele leva, invariavelmente, ao amor à humanidade. Este compreende o homem como uma criação especial, dotada de poderes latentes; indivíduos evoluindo para se tornarem melhores, com menos fragilidades e mais virtudes. Quem conhece o amor à humanidade sente vibrar no peito expressões como irmandade e fraternidade.
 
Porém, pobres mortais e falhos que somos, raramente pensamos no amor à sabedoria e à humanidade. Estamos mais atentos e preocupados com o amor pessoal, que se expressa nas relações conjugais, familiares e entre amigos. Isso não é mau; apenas egoísta. O que é mau nessa história é que, agindo assim, sem nos darmos conta, enviamos ao universo a mensagem de que queremos aprender mais pela dor, do que pelo amor. Mas isso também não é motivo pra ter medo do castigo. Sempre é tempo de aprender a amar – também a sabedoria e a humanidade... Ou seja, já aos livros e vivências mais altruístas!
Sandra Veroneze

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  23.03.2010  

  

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