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Escaninho
Renata Iacovino
Eu quero que num escaninho
Desenhem-se as linhas de meu caminho
E eu, sem aportar... não suporte
Derrubando, assim, meus ares de forte
Eu quero que esta hora
Não leve embora
O cheiro do meu amor
Que nesta primavera, neste calor
Faz-me sentir de outro planeta
Sem ao menos eu precisar de luneta...
Quero esquecer que ele tem afazeres
Que preterem meus prazeres
Mas eu, na minha perseverança,
Sorrio como uma criança
Que sensitivamente sabe
O que é seu e o que não lhe cabe
De forma obediente eu espero
O que o destino, às vezes, severo
Faz-me enxergar em manhãs toscas
Em quase todas as minhas manhãs tão foscas...
Eu quero crer que sua mão me levará
Perto de meu coração, que inequivocadamente pulsará
Pelo último do que há em mim
Que, certamente, é um renascer para que não haja meu fim.
Fresta
Renata Iacovino
na fresta,
réstia que se manifesta tênue
entre o fazer e o não
a dúvida e o consentir
com sentimento ou sem
busca em vão
nesga que teima em brilhar
a frincha me fisga
e eu: flecha
arqueio como quem sonega
sua natureza
eu côncavo, eu outro
o resto me absorve
e o que me resta
senão
entrar
Haicais
Renata Iacovino
O tempo espreguiça
em ritual matinal...
Natura sem pressa.
A vitrola lembra
No folgar do seu chiado
Os sons de antes de ontem
ouvindo o silêncio
Renata Iacovino
talvez eu enlouqueça
talvez vá para o divã de um analista
e dê alta para o cara
à minha loucura nada se compara
talvez eu desligue o som
para sempre
e o silêncio me ensurdeça
mais do que qualquer poluição
talvez eu teça
a sua alma dentro da minha
de tal forma
que nossas formas se misturem
se integrem
e nunca mais se regenerem
talvez eu cometa um equívoco
nesta vida
e o leve para outra
carregando o que ainda falta cumprirmos
talvez eu desplugue as tomadas dos computadores
e olhando em vão pela janela
tente resgatar as dores
irrecuperáveis
e quero todas
porque a elas pertenço
e não abro mão
beberei cada gole da vã espera
sabendo que ela também me espera
talvez eu seja outra
talvez não
talvez eu engula o oceano
achando que bebo suas lágrimas
talvez da loucura eu escape
e quando isto acontecer
estarei certa
morri

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