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A COR DA POESIA
Regina Coeli
Guarda a paleta em sílabas ardentes
O tom do verso em letra colorida
De azul pintando em tônicas a vida
A misturar lampejos reticentes.
A rima sai em busca de suas lentes
Derrama luz na tela reacendida
E nasce a estrofe em cores concebida
Das ondas indo e vindo, inconsequentes...
A lua branca aponta na janela
Graciosamente empresta o seu balanço
Às letras bocejantes da aquarela...
E a poesia entoa um hino manso
Em sinfonia àquela meiga tela
Que declamou o mar em seu remanso.
AMADEU
Regina Coeli
Foram tantos, não sei bem,
Começando por alguém,
Passando por gato e cão,
Codornas e maritaca,
Canários, cavalo e vaca,
Que a conta até empaca
Com tanta recordação...
Se o coração fica triste
E pensa que não resiste,
Vem uma nova emoção!
Saindo da minha infância,
Toda pompa e circunstância
Em toda a sua elegância,
O amor do meu coração!
Um amor que eu não esqueço,
E só de lembrar, padeço,
Diante da dor de amor...
É tão forte isso que eu sinto,
Verdadeiro, pois não minto,
Que esse poema sucinto
Não lhe dá justo valor...
Longe (ainda havia bonde,
Minha vaidade não esconde),
Vivi uma linda história
Com meu amor, o primeiro,
Impávido por inteiro,
Digno rei num chiqueiro,
Sem trono, cetro e sem glória...
O bichinho foi comprado,
E por mim logo adotado
Pra ser como brinquedinho...
Se dinheiro não havia,
E a boneca que eu queria
Era pura fantasia,
Brincasse eu com porquinho!
Vinha da escola correndo
Era muito amor, só vendo,
Pra brincar com meu brinquedo!
O chiqueiro eu lavava,
Com vassoura de piaçava
E o porquinho eu coçava...
Eis aí nosso segredo!
Com ferrinho compridinho,
Coçava o meu amiguinho
Cheinho de amor no olhar...
Inundado de prazer...
Nada mais querendo ter,
Completo dar/receber,
Até no chão desabar!
Quanto mais ele engordava,
Mais porquinho eu amava,
Pois mais havia pra amar...
Um amor apaixonado
Deseja do ser amado
Cada palmo, cada lado,
Um amar ilimitado...
Assim foi com Amadeu,
Quem deu o nome fui eu,
Após intenso pensar...
Mas... ouvi e sei de cor,
Se ele ficasse maior,
E o chiqueiro... bem menor,
Não tinha como ficar...
Meu Amadeu foi vendido
Por não ter compreendido
Que não podia engordar...
Não queria ir embora
Relutou, grunhiu lá fora;
Não sabia que era hora
Do nosso amor acabar...
Nem sabia eu tampouco,
No meu raciocínio louco,
A dor da separação!
Fiquei sem meu porco-amigo...
E a dor vive aqui comigo,
Na estrada que ainda sigo,
Cortando o meu coração...
Amadeu, meu grande amor!
Tu és do jardim a flor,
E ainda me dás perfume!
Se me doem os ouvidos
Dos guinchos de ti, doídos,
Saudade e choro, incontidos,
Da minha história são lume!
A ROSA
Regina Coeli
Celebra a enxada o alvorecer do dia
E faz a lâmina sorrir seu fio
Cortando ao mato um avançar sombrio
Sobre a mudinha que no chão crescia.
Em movimentos de fiel magia,
As mãos trabalham sobre a terra em cio
A protegê-la de qualquer desvio,
Pra dar à luz a sua bela cria.
Nasce o botão em seu raiar sutil
E em lindas pétalas se faz a flor,
A mais bonita que jamais se viu...
Sob o perfume a borrifar frescor,
Que as mãos se ponham num sentir servil,
Louvando a rosa, a perfeição do Amor!
CANOA FURADA
Regina Coeli
Embarquei em ti minha suavidade,
Sonhos tímidos, risos ressabiados,
Fui remando real felicidade
Pousada em corpo e alma desarmados.
Traçaste o meu percurso em vontade,
Eu, sem ação, os remos descansados,
Cega aos respingos duros da verdade
Que incomodava em olhos marejados.
Percebi grandes furos no teu casco
Ao me debruçar toda em solidão
E me encharcar nas águas de incertezas.
Pulei de ti, canoa, meu carrasco,
Mas naufraguei na atroz revelação
De ter vencido as minhas correntezas!
QUIMERA
Regina Coeli
À tarde, quando o sol em despedida
Beija a faceira lua, apaixonado,
Quisera estar com ela, lado a lado,
Amando-a sem chegada nem partida.
A lua, meigamente enlanguescida,
Se mostra ao sol em branco perolado;
Quisera tê-lo em céu bem estrelado
E só a ele amar por toda a vida...
Destino traiçoeiro, quem traçou?
Negar amor a amantes no infinito
Somente nega quem jamais amou...
Ardeu paixão o sol, raiando em grito
Na luz que a amada lua então gestou,
Parindo o seu luar, manso e bonito!

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