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ESTRELAS DE VIDRO
Estive a chorar ao quebrar bonecas
Sorrir, para o palhaço alquebrado
Correr dos raios da tormenta
Estive a cantar imitando as pererecas
Gritar, para o olhar distanciado
Implorar a Deus, que tudo inventa
Estive a rodopiar em discotecas
Infringir ordens de um condenado
Beber a água que não estava benta
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Estive a navegar num mar todo moído
Naufragar no tempo e na queda
Agarrar todos os soluços a barlavento
Estive a sondar o homem aguerrido
Roubar seu sonho e sua pouca moeda
Corromper meu sono jogado ao vento
Estive a orar e adjurar pelo tormento
Lastimar a vida caída na pedra
Descobrir que as estrelas não são de vidro.

SEM IDADE
Não tenho mais idade para
Argumentar
A solidão
Ganhei com a alma
O mundo e a imensidão
Não tenho mais idade para
Ornar
As aparências
Tudo que sei agora
São consequências
Não tenho mais idade para
Implorar perdão
A humildade é capaz
Suficiente no saber
Que me apraz
Não tenho mais idade para
Dizer que aprendi
Que tudo sei
Pois o tempo passou
E pouco juntei
Não tenho mais idade para
Voar do mesmo modo
Que sabia andar
Mas hoje sinto a vida
Num simples olhar
Não tenho mais idade para
Ser assim tão simples
Sou um outrora
Com âncora bem presa e funda
E nada me desarvora.
DESPEDIDA
Quando deitarei meu anoitecer
Dispensarei as dores da terra
Renunciarei ao medo da nudez
Fingirei insensatez....
Ao céu pedirei asilo
Por padrão, minha cor azul
Ficarei por lá inusitada
Será minha última estada....
É que hoje, há belo verão
Que eu trouxe da juventude
Veio no balanço do outono
Enrubescido, sem dono....
E quando eu contava as primaveras
Nela pensei só em flores
Verdade, comi muito mel
Em alguns potes, também o fel....
E longe, quando eu brotei do caos
Nem sabia que Eras existiam
Neófita, descalça e de pouco siso
Logo dispensei qualquer aviso...
Quando deitarei meu anoitecer
Já saberei orar ou suplicar
Juntarei todo meu pecado
E para os inimigos direi:
Este também foi doado.

VIAGEM
Vou sair de férias
Dar prazos para o descaso
Sem criar caso
Vou viajar em mim
Vagar sem fim
Sem dor ou pilhérias
Vou de encontro às estações
Chorar amores zelosos
Em sonhos prazerosos
Que deixaram suas marcas
Qual tesouro em arcas
Sem olvidar tentações
Viajo sem pranto
Um aceno disfarçado
Adeus fingido e magoado
Com lágrimas contidas
A soluçar sofridas
De um amor em desencanto
Ímprobo aconselhamento
Mostrou-me o reverso da jornada
Fez-me fugir abandonada
Como se ganhasse indulto
Deste desmerecido vulto
Que se chama sentimento
GUERRA
Vi horizontes caídos
Sem repousos livres,
Mas da indolência inóspita
Receei...
É assim,
A guerra.
Deitavam o sol desmaiado
Sobre o leito do zênite,
Não mais havia lugar leal
Nem estrelas...
Eu via assim,
A guerra.
Vigentes leis sem reputação
Dada aos leigos em triunfo,
Mas todo caldo em labuta lega
Um espaço dorido...
Presenciei ainda,
A guerra.
Quando o arauto comandante
Feriu a ira dos obscenos,
Vi risos destronados destros,
Mas negros...
E surgia,
A guerra.
Agora sem sol, sem horizontes,
Em cada alma um campo minado
A farejar toda felicidade farpa,
De destino vil...
E as estrelas,
Todas frias,
Na guerra.

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