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Olhar e ver ou não ver
Maria João Brito de Sousa
Nunca te vi e… vejo-te, contudo!
Imagino, talvez… sabe-se lá!
Quem me pode dizer que cores é que há
Nas coisas que eu criei, em que me iludo?
Por vezes pinto o céu de um sol chorudo,
Com cores por toda a parte, ao Deus-dará…
Noutras, fica cinzento e eu, por cá,
Aguardando a chegada de outro Entrudo…
Cada realidade é tão real
Quão reais são os olhos de quem olha
E, depois, interpreta o que então viu.
Tudo são derivações do que é normal…
Dois lados complementam cada folha
Que é, pr`a nós, o que olhá-la permitiu...

O Poeta e o mar
Maria João Brito de Sousa
O mar, no seu abraço azul-dourado,
Vai despertando em nós o novo anseio
De antigas caravelas no seu seio
Traçando, no futuro, esse passado
E nesse mesmo mar fica traçado,
Neste luso destino, o seu enleio
Por termos bravas ondas de permeio
Entre nós e a voz dessoutro fado...
E tanto fado sobra e tais poemas,
Materializando a essência deste povo,
Surgem desta fusão entre elementos
Que nem as alegrias, nem as penas
Podem fugir, à luz desse renovo,
Aos já predestinados novos ventos…

O Poeta
Maria João Brito de Sousa
Falou-vos de tricanas e varinas,
De marchas, manjericos e pregões...
Falou-vos do seu mar, das orações,
De velhas conversando nas esquinas...
Contou-vos das tabernas e cantinas,
Do fado, das guitarras, das canções,
Das palavras acesas, dos jargões
Na voz mal afinada dos ardinas...
Falou-vos de Lisboa, das colinas,
Das vielas, da Sé, das procissões,
Das causas e razões mais pequeninas.
Que irão ultrapassar as previsões,
Dos bares, das noitadas, das “meninas”,
Dos homens, das mulheres e das paixões...

O Alter Ego
Maria João Brito de Sousa
Se sáficos, se heróicos estes versos,
Importa-me é que falem do que sinto,
Que às vezes os poemas são travessos
E mentem muito mais do que vos minto…
Quantas vezes as tónicas me fogem,
Quantas outras me encontro num soneto…
Que mágoas tão distantes me consomem?
E que estranha vitória vos prometo?
Meu palco é de ilusões, de sonhos loucos,
Invento-me a mim mesma e sem saber
Recrio a minha dor no meu cansaço…
E ao prometer-vos muito, dou-vos pouco…
E posso tudo mesmo sem poder,
Sem sequer entender por que é que o faço!
MISTÉRIO
Maria João Brito de Sousa
Que mistério em teu corpo se engendrou,
Maria, se não foste de ninguém?
Que mistério, Maria, te fez mãe
De um menino que tanto nos marcou?
Que Maria foi essa que alcançou
Honra tão grande e tão imenso bem?
Maria e só Maria foi alguém
Em quem o próprio Espírito encarnou…
E terá sido assim que aconteceu?
Terá sido o menino que nasceu
Igual a todos nós, nascido em dor?
Porque se assim não foi… quem serei eu
Para inquirir sobre quem já morreu
E em tudo vive ainda em puro amor?

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