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Alguma sextilhas
Marcos Antônio de Andrade Medeiros
Tem muitos pés de poesia no roçado de Luiz
Lá nos campos de Luiz
germinam mil fantasias,
sonhos ali frutificam,
feito belas melancias,
refrescando nossas noites,
adoçando nossos dias.
De contextos sociais,
mas sem perder a ternura,
Luiz, a cada poema,
replanta um pé de verdura,
simbolizando esperança
para quem tem vida dura.
Na verve bem humorada,
A brincadeira é freqüente,
Semeia cada sorriso,
No chão que mora na gente,
com viola ou sem viola,
cultiva sempre o repente.
Quem gosta de plantação
e na colheita é feliz,
analisando tal obra,
convencido, pensa e diz:
tem muitos pés de poesia
no roçado de Luiz.
Algumas septilhas
DE ALGUMAS COISAS GUARDADAS NO SEIO DA NATUREZA
Marcos Antônio de Andrade Medeiros
A natureza é tão bela
Que reflete o dom divino
mostra cores da aquarela
e das aves, cada trino,
a corrida da gazela
fugitiva de um felino.
Banhada em raios de Lua,
arquitetada no ninho,
nutre o peixe que flutua
no leito do ribeirinho,
natureza se insinua
no voar do passarinho.
Natureza está no brejo,
nas matizes do concriz,
lá na malhada do tejo,
na suave flor de Liz,
por isso é que eu não invejo
quem nesta vida é feliz.
Na floração de um ipê,
em gênero, conta e grau
louvo a flor do mussambê
e a tinta do colorau,
brindo às penas do tié
neste pequeno sarau.
As rimas abençoadas
pautadas na singeleza
surgiram compartilhadas
numa mesma correnteza
de algumas coisas guardadas
no seio da natureza.
O improviso
Um poema em septilhas
O jeito de improvisar
Não se aprende na escola
Vem do profundo do ser
Para as cordas da viola
Tem todo um dom divinal
Princípio fundamental
Para quem rima ou embola
Cada improviso independe
De um aporte financeiro
Pois aquele que improvisa
Não precisa ter dinheiro
Basta ter no coração
A riqueza da emoção
E de um amor verdadeiro.
No feitio do improviso
Tem inspiração presente
Apesar de imediato
E ser feito de repente
Deve estar em harmonia
Em perfeita sintonia
Com a dor que o poeta sente.
Décimas com mote glosado
Chora a noite com saudade do Sol que dormiu mais cedo
Na minha locomoção,
pelas veredas da vida,
tive noite mal dormida,
em momentos de tensão.
Porém, pra compensação,
descobri belo segredo,
que lá por trás do lajedo,
num rasgo de lealdade,
chora a noite, com saudade,
do Sol que dormiu mais cedo.
Quer saber da solidão, escolha viver com ela
A vida quer companhia,
para ser mais bem vivida,
feito o salgado e a bebida,
A noite e o final do dia,
toda e qualquer parceria
torna a vivência mais bela,
o cachorro e a cadela,
o ciúme e a paixão,
quer saber da solidão
escolha viver com ela.
Quem viveu só toda vida,
decerto sofreu bastante,
feito nau sem navegante,
desprezada sem guarida,
foi solitária assumida,
tinta ausente na aquarela,
um cinturão sem fivela,
tesouro sem guardião,
quer saber da solidão,
escolha viver com ela.
Tendo uma vida isolada,
a criatura desgosta,
por não ver a mesa posta,
pra sequer um camarada,
vive a vida amargurada,
fala só e é matusquela,
quase não usa a panela,
a luz só de um lampião,
quer saber da solidão,
escolha viver com ela.
Para ser um ermitão,
precisa muita coragem,
pois não tem camaradagem
tão pouco amigo ou irmão.
É distante da paixão,
um cão sem sua cadela,
mar distante da procela,
piloto sem avião,
quer saber da solidão
escolha viver com ela.
Se um dia alguém decidir
fugir da sociedade,
sei que vai sentir saudade
e pode até sucumbir.
Podendo antes de dormir,
lembrar da sua novela
e de cada cena bela,
vista na televisão,
quer saber da solidão
escolha viver com ela
Cedo ou tarde sei que vai
arrepender-se de fato.
Vai querer sair do mato,
ser apoiado se cai,
deixar de ser samurai
e viver na cidadela,
marcar bingo na cartela,
investir na profissão
quer saber da solidão
escolha viver com ela
Pior do que sofrer queda é não saber levantar
Marcos Antônio de Andrade Medeiros
Desde o dia em que nascemos
Encontramos mil barreiras
Subimos tantas ladeiras
Que do número esquecemos
De muitas delas descemos
Sorridentes a brincar
No entanto se tombar
A nossa dor desarreda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar
Quando fui brincar de tica
Levei um tombo danado
Saí todo machucado
Chateado e tiririca
Botei culpa na peitica
Cuidei logo de acusar
Um sujeito por cavar
Um buraco que não veda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar
As desgraças deste mundo
Ocorrem naturalmente
Mas se for procurar gente
Que cause um dano profundo
Meu pensamento fecundo
Sei que vai logo encontrar
Aquele a quem vai culpar
Por tudo que se depreda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar
Eu estando amedrontado
No meio da grande selva
Escorregando na relva
Terei logo destacado
Já sei quem foi o culpado
Que me fez escorregar
Por ter deixado espalhar
Tudo o que caça e que preda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar
Até a simples topada
Já é motivo de sobra
Para por culpa na cobra
Que passava na calçada
Com sua língua afiada
Vivendo a tagarelar
Decerto irei reputar
Todo veneno que arreda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar
Sendo parte da fofoca
Uma desculpa eu promovo
Pra me limpar com o povo
Desconto na frevioca
Saio de dentro da toca
Pra ver criança xingar
O maluco do lugar
Que raivoso logo enreda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar.
Até remédio ruim
De efeito colateral
Vou acusar pelo mal
Que venha a causar a mim
Nessa vida é sempre assim
Se tiver que cochilar
Vou logo me desculpar
Dizendo que ele me seda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar.
Até o padre, coitado,
Por passar a penitência
Vai sofrer a conseqüência
Pelo meu joelho inchado
De ficar ajoelhado
Na hora de confessar
Diz que vou ter que pagar
E de mim não se apieda
Pior do que sofrer queda
É não saber levantar

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