SOU COMO A FOLHA... (OSCILAÇÕES) 
lílian maial


Sou como a folha, que baila no vento, 
levada longe pelas mãos de Deus. 
Espaço aberto, vôo no pensamento, 
como fantoche de cordões ateus. 

Olhar perdido nos cantos das ruas, 
por trás dos morros, feito chuva densa, 
pousado em rimas nas planícies nuas, 
molhando campos sem pedir licença. 

Outrora firme como rocha bruta, 
hoje porosa, areia diminuta, 
indivisível e incontável ser. 

A minha essência permanece inteira: 
poeta e louca, sem berço ou bandeira, 
invento versos para não morrer.


ABR/2003


IDAS VINDAS
Lílian Maial



Sempre busco esse instante que passou,
Mas me atraso, em segundos, uma era.
E se volto, eu me perco de onde estou,
Bem não fico onde o tempo me tolera.

O caminho que escolho já chegou,
E eu não chego onde o grito reverbera.
No meu eco, a palavra silenciou,
No silêncio, ouço a voz que dilacera.

Se o meu tempo abre, em mim, funda cratera,
Esse abismo, em que o peito se lançou,
Sou um louco astronauta em longa espera.

Tenho a tola certeza do que sou,
Sei do tempo que me aprisiona fera,
Entre a ida e entre a volta, eu nunca vou.


UMA NOITE QUALQUER SEM ESTRELAS...
® Lílian Maial



As noites borradas do inverno
não permitem ver as estrelas.
Vem um silêncio de brilhos,
um cheiro de céu desolado.

E então chega a dor,
a lágrima efervescente,
vontade de lembrar o que não foi vivido.
Ânsia de nunca ter morrido.

Escorre e corrói,
não poupa os dias,
as manhãs frescas de sol,
os passeios de brisa no rosto.

As noites nubladas de inverno
não dão guarida aos que sobram.
Implacável rajada de espera,
de um tempo que falta pouco.

E então vem a certeza,
a paz imposta do deserto,
o desembainhar de olhares empoeirados,
a seca de devaneios.

Árida é a madrugada sem ópio.
Em outras estações,
um sopro de promessa ainda embala o engano.


Nada mais triste que uma noite sem estrelas...




TINTO TANGO 
®Lílian Maial


O momento é rubro 
Como o tinto 
da boca carmim. 

O sangue ferve 
Como o vinho 
que desce queimando 
[em desejos] 

O tango aquece 
Como o calor 
de lábios ávidos 
de vinho 
de beijos 
de amor. 

O tango gira 
A cabeça quente 
O vinho ferve 
A boca rubra... 

O peito explode 
O pensamento alcança 
O amor se jorra 
na taça tinta 
do teu olhar... 
o vinho 
o beijo 
o tango... 

O momento é carmim 
A taça é de sangue 
O vinho é loucura 
O tango é desejo. 
A boca rubra 
A taça gira 
O amor loucura 
O vinho excita. 

Bebo-te louca 
beijo-te tinto 
Sorvo-te tango 
Amo-te boca 
Vejo-me rubra.



SER MULHER 
®Lílian Maial


Nasci mulher, é fato 
Gameta indiscutível, 
Cometa irremediável, 
Soneto jamais escrito. 

Cresci menina, concordo, 
De pernas cruzadas, 
Cabelos alinhados, 
Pelos depilados. 

Vivi madura, é certo. 
Aprendi a traçar os olhos, 
A disfarçar as lágrimas, 
A não borrar a maquiagem. 

Sonhei criança, feliz. 
Escrevi meus passos, 
Acreditei nos planos, 
Colhi meus frutos. 

Provoquei emoções, faz parte. 
Ensinei meus truques, 
Repiquei batuques, 
Batalhei com arte. 

Briguei na vida, gritei. 
Enfoquei os problemas, 
Resolvi os teoremas, 
Me entreguei a poemas. 

Quebrei espelhos, de raiva. 
Escondi a dor, 
Distribuí amor, 
Superei o tempo. 

Amei demais, está em mim. 
Mulher sem amor não existe. 
Atraí desejos, por capricho, 
Ou não, por pura paixão. 

Caminhei e caí, me ergui. 
E não pretendo mudar. 
Arregacei as mangas tantas vezes, 
Que já nem sei desenrolar. 

Mas...quer saber? 
É uma delícia ser mulher! 
Não troco por nada, por ninguém. 
Volto assim mil vezes, se puder. 

E quando o véu da noite, 
De inveja e despeito me levar, 
Que o amor que distribuí, 
Os frutos que plantei, venham, enfim, me regar. 


Rio, 08 de março de 2000.

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  13.02.2010  

  

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