Grades
Elisa Alderani


Piscam no ar parado os vaga-lumes,
São minhas palavras sem voz,
Sem rumo, sem sentido.
Nem uma estrela aparece
No preto veludo do céu.
Nem a lua aponta no horizonte.
No silêncio da casa,
Quebrado pelo chiado do velho ventilador
As horas avançam preguiçosas.
O cansaço mistura-se com sutil melancolia.
Pálpebras pesadas caem sobre o livro aberto.
Grades enferrujadas pelas intempéries da vida. 
Falta só um capítulo...



Sombras e luzes



Quem acaricia os galhos da árvore?
Será o vento?
Ou serão os galhos que acariciam o vento?
Sonhos e realidade!
Serão os sonhos que acariciam a realidade?
Ou a realidade que acaricia os sonhos?
A árvore não sabe responder. 
Ela continua firme. Suas raízes são profundas.
Ergue-se para o céu sem medo.
O cume frondoso balança sem barulho.
Encantada, descrevo este lindo cenário.
Meus pensamentos ascendem,
Chegam até o mais alto galho.
Não os deixo desabar como folhas amareladas.
Por trás da árvore, o céu está cinzento.
Nuvens escuras ameaçam chuva...
Logo cairá a noite.
As cortinas de veludo pretas
Fecham-se frente à platéia.


Praia deserta


Quando o deserto da solidão me invade
Os pensamentos vagam como nuvens
Empoeiradas pelas lembranças...
Perdidos, na areia branca da praia,
Milhões de porquês
Enchem todo o vazio.

No vai e vem das ondas
Voltam às emoções perdidas...
Sem respostas
pelo amanhã da vida!



Morte do Poeta 

Tu poeta cantas a vida.
Aquela que nunca finda.
Sutil brisa no alvorecer
Pelo arrebol do Eterno Sol
Que o mundo ilumina.

Tu poeta cantas a morte
Arte despojada
Estrutura informe, inacabada.
Vazia, sem réplica.
Da cor do mistério da terra muda.

Tu poeta falas de vida e de morte.
Um dia vive de alegria,
Noutro chora de tristeza.
Num só abraço
De braços sem força.

Tu poeta viverás para sempre.
Teus versos o vento jamais levará
Cinzelados despontam
De inúteis devaneios
Pela desconhecida morte
Inspirados.



Orações 

Frente a minha morada, o poste é sentinela alerta.
A janela está aberta.
Pingos de chuva luzentes riscam o ar.
Cheiro de terra molhada
Penetra minha alma enclausurada. 
Quero sair correr, me perder no tempo,
Mas fico sozinha pingando saudade.
Chora o céu escuro,
Lembranças atravessam o muro.
Oh, poeta triste! Escuta o silêncio,
Entre cadeiras vazias, livros espalhados na mesa,
Idéias azuladas, sufocadas,
Veladas de mistério.
Sonha poeta; preenche linhas vazias,
Noite de melancolia inútil, profanada.
Procura as palavras espelhadas no vidro.
Suspiros embaçados, devaneios...
E, se esvai o dia, o agora.
Uma chuva de orações molha
Minha alma nua.
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  19.03.2010  

  

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