Hoje eu desejo...
Edir Pina de Barros 

Hoje eu desejo teu silêncio mais profundo,
O teu fogoso toque e teu ardente olhar...
Vou mergulhar nas tuas águas, vou sonhar
Descortinar teu etéreo véu e ver teu mundo!

Eu necessito nada mais do que um segundo,
Vou me afogar nos teus sentidos, vou te amar
Como ninguém na tua vida ousou se dar ...
E quero desses beijos teus o mais fecundo...

E num momento tão eterno, ter-te enfim
Sem tuas peias, sem teus pejos, teus enredos,
Pois hoje quero a tua chama, o teu fulgor...

Não necessito nada mais que ter-te assim,
Sem teus receios, teus limites, teus segredos
Pois hoje eu quero em ti morrer-me por amor.



Amor perene!
Edir Pina de Barros 


No espelho espio minha tez vincada
No meu semblante a vida que declina,
E nada tem daquela flor-menina...
Do que já fui, também não vejo nada!

Nada restou daquela tua amada,
De olhar seguro, jovem, bem traquina
Febril de amor, tão louca, tão felina...
De tez macia, firme e bem rosada!

Relembro meu passado bem vivido...
Do teu amor tão meu! Amante, amigo!
Tu és ternura que assim me invade!

De novo espio e vejo-te, querido
Como uma sombra tu estás comigo...
Tu és em minha vida só saudade!



Lágrimas secretas!
Edir Pina de Barros 


O pranto que chorei ninguém o viu,
tão grande que minh'alma se afogou,
o tanto que chorei ninguém chorou,
e tudo que senti ninguém sentiu!

Contido, não jorrou dos olhos meus,
veloz correu nos rios meus, secretos,
formando poços, lagos bem repletos,
saudoso desses olhos que são teus!

Ninguém ouviu o pranto que eu chorei,
nem mesmo quem se diz ser meu amigo!
No entanto, só, chorei, mas tu não vias...

O pranto que eu chorei somente eu sei,
soluços que eu não dei estão comigo...
Sacodem minhas noites tão vazias!



Eu canto os excluídos!
Edir Pina de Barros 


Eu canto quem não tem qualquer guarida,
A calejada mão de quem trabalha,
Peões, posseiros, gente desvalida,
Que vive sobre o fio de uma navalha!

Eu canto todos pobres desta vida,
Aquele que levanta, cai e falha,
Que grita por não ter sequer comida,
Que tanto luta e sofre por migalha!

Eu canto aquele que, também, não cala,
Com tanta garra, enfrenta a vida bruta,
Aquele que persiste sempre em pé!

Aquele que o suor, na luta, exala...
E que, o poder, na vida não desfruta,
Que morre por Maria, João, José!



Grafismo indígena
Edir Pina de Barros 


Essa tua pele mais parece tela
Toda pintada em tons da natureza...
Materializa mito que desvela,
Antiga história, tanta profundeza!

Em delicados traços, com cautela,
Nessas pinturas, feitas com firmeza...
Uma cultura ímpar se revela!
Em seu silêncio encerra grã beleza!

Morena tez, trazendo ao cotidiano,
Sagradas leis do cósmico, do humano,
toda memória, enfim, dos tempos idos!

Em cada traço, prenhe de sentidos!
Uma epopéia! Tempos bem vividos
Em território livre, soberano!
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  12.07.2010  

  

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