COPO DE CAMPARI
Carlos Lúcio Gontijo


Sinto Falta dos amigos distantes 
Que na luta da vida se perderam 
Ou antes se acharam em alguma morte 
Feito mãe prepara leito de filho 
Com o brilho da esperança nos olhos 
Arrumo a casa, preparo a sala 
Receberia com gala qualquer pessoa 
Mas não soa a campainha 
O silêncio me ensurdece 
Derrete o gelo no copo de "campari" 
Em mim o apelo de prece 
Tanto zelo pra terminar assim 
Sem alguém que me ampare 
Ciente de que a carne é mero revestimento 
Breve encantamento do espírito em solidão 



PEÃO DE LETRAS
Carlos Lúcio Gontijo


Palavras são novilhos 
Novelos de rios, lã 
Cavalos bravios, puro-sangue 
Na escuridão esperando manhã 
Mangue de fala nascente 
Veneno de língua poente 
Pauta sonhando som 
Feno bom para a mente animal 
Que não sabe ser silente 
Nesta campina dou cavaleiro 
Poeta visionário social 
Guerreiro, desbravo o dicionário 
Matagal de mel em favos 
Onde enlaço palavras com laço de céu 
Feito abraço, prisão que afaga 
Esta é minha saga, minha sina 
Que se algum dia termina 
Quero meu corpo ao lado da mãe 
E o conforto da inscrição final: 
"Meu irmão, aqui faz um peão de letras" 


FRUTOS E GENTE
Carlos Lúcio Gontijo


Frutos e gente são iguais 
Ambos acabam amadurecendo 
Quem o colha deseja o fruto 
Quem o acolha almeja o homem 
Fruto e gente têm sabor 
Somente renascem se provados 
O fruto através da semente 
O homem pelo milagre do amor 



AMORA DOCE
Carlos Lúcio Gontijo


Ainda cora no céu de minha boca
Aquele gosto de nuvem do teu beijo
Mora em mim toda janela do teu rosto
Amora doce em calda de raios de lua
Ofuscando as ruas de néon da madrugada
Foi bom sentir-me horizonte ensolarado
Mas se quebrado o bandoneón do amor
Sob as sanhas do batom a dor é branda
A lágrima que corre é apenas vida que anda
Num eterno “quiereme, besame mucho”
Sussurrado em terno de linho branco
Manchado pelo vinho santo da paixão!




MORMAÇO DE ESTRELA
Carlos Lúcio Gontijo


Em tarde de outono perdida no tempo
Ao vento desfolhavam as árvores da vida
Caminhos reclamavam-me passos
Quando ir em frente já nem sabia
E era profundamente fria a solidão
De repente, envolta em mormaço de estrela
Você instala-se em meu último pedaço de céu
Abre-me janelas de luzes esvoaçantes
Amante, olhei-as nos olhos
Feliz diante do novo país sentimental
Descobri discos-voadores, espiritualidade, dimensões
Preso em liberdade em seus jardins
Bebendo suas resinas de esperança natural
Fui dobrando suas esquinas
E nunca mais voltei pra mim...
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  07.05.2012  

  

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