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O MENINO DE BEIRUTE
(André L. Soares)
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Embora tivesse escolhido a felicidade
a julgar pelos prédios em ruínas,
a felicidade não o escolheu.
Ainda assustado, guardou no bolso
– junto a um retrato dos pais –
três rubras gotas de ódio e saiu.
Queria sorrir para o mundo...
em resposta, as ruas sujas gargalhavam
um sarcasmo seco, de fuzil.
Em dia claro, choviam estilhaços.
Nos seus braços uma ferida sangrava
e ele em total torpor
(historicamente anestesiado...
coração nasce blindado,
onde não há amor?).
Entre a poeira cinza dos escombros
a infância resiste e ele se ilude
num jogo de bolas de gude, distante dos bombardeios.
A paz agora é uma moribunda sombra,
que se alimenta do prometido cessar-fogo.
(rápido rasgo de esperança
que se curva às tradições e aos interesses...
e haja paixão, para manter viva essa loucura).
De novo correndo entre os corpos
sonha o dia em que possa descansar,
sem temer – na esquina – um inimigo,
usar roupas limpas aos domingos,
falar de coisas lindas,... ver o luar...
Ele não vai hoje à escola...
(arremedo queimado de salas de aula)
porque seus professores
trocaram os livros pelas armas.
Hoje ele não vai à escola...
mas traz marcadas em sua pele
todas as mais duras lições.
Ele hoje não vai à escola...
dez anos nessa vida infeliz
e a promessa de vingança
como sagrada cicatriz.

POR DARFUR
(André L. Soares)
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Diz que tua maldade
é só loucura,...
fruto de uma dor insuportável
que nem mesmo o
tempo curou.
Deixa que eu sinta
alguma culpa.
Divida comigo esses crimes,...
tu que irás beber
todo esse sangue,
derramado em nome
da ambição.
Mente!
Tenta iludir o orto das lágrimas!
Pois não quero crer
que seja o homem
o mais carniceiro
dos Leviatãs.

REBELDE
(André L. Soares)
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Teus mistérios me devoram
e me transformam em compulsivo curioso;
homem em fogo a desejar-te todo tempo,
espantado com a cor do teu fascínio;...
mas sob teu domínio
meu amor é furiosa tempestade.
Liberdade é tolice que abdico,
quero ser, por livre-arbítrio,
tua propriedade,... teu escravo.
Vem satisfazer-se plena em mim,
mas não conta sempre assim
com essa leal passividade.
Sou mesmo de veneta
vez ou outra, sou rebelde amotinado.
Tendo rabiscado cicatrizes na tua pele,
deixarei mordidas em tua carne.
Invertido assim o jogo de cartas marcadas
entre a casa grande e a senzala,
se à luz do dia, tu mulher és minha dona,
quando, enfim, a noite acalma
sou eu o amo de teu corpo,
tu és minha mucama...
servil, apaixonada.

SAMBA DO AMOR PERFEITO
(André L. Soares)
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Confessa logo que você me deseja
Que se falo em seu ouvido você fica louca
Que seu corpo até lateja se ouve minha voz
Que quando pensa em nós, fica toda faceira
Quer rasgar a roupa e se entregar inteira
Quase me implorando um beijo na boca.
Confesso logo que eu jamais lhe esqueço
Que se fala em meu ouvido, acaba toda pressa
Que quando penso em nós, nada mais interessa
Que quando você passa, perco minha cabeça
Nem mesmo sei meu nome, telefone, endereço
E suplicar seu beijo é todo que me resta.
Sendo o que se quer, acertaremos o passo
No compasso do destino que nos faz unidos
Decididas almas-gêmeas que se apaixonaram
Macho e fêmea que se amam, assaz atrevidos
Somos dois banidos desse Paraíso imperfeito
Revelando a todos que o amor é possível.

VERBOS, POR TI
(André L. Soares)
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Revelar-me, somente ante teu beijo,
dócil ato que espero, em desespero,
pois meu corpo te aguarda, novamente,
na distância de alguma madrugada,
para tomar-te em meus braços,
linda amante...
sem limites, sem tempo, sem ressalvas.
Dominar-te suave, cravando dentes
nessa pele em que já eriçam pêlos,...
e se as mãos sufocam teus movimentos
liberdade te chega por entre orgasmos,...
para fazer de ti, a minha mulher,
loucamente a andar sobre meus rastros.
Saciar-te os desejos mais ousados,
batizar novas loucuras com teu nome,
de tua carne jamais sentir-me farto,
aos teus olhos ser rei, teu deus e homem,...
tendo sempre em teu amor
meu horizonte,...
fonte eterna de augusta felicidade.

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