CONTO
PEDIDO DE SOCORRO
 
 
 J.B. Donadon-Leal
            A Deus compete o julgamento.
O olhar espesso da tarde fez correr pela testa a barrenta gota de suor. Fumegava o sol da tarde veraneia, gotejando réstia ao longo do asfalto da larga rua de Maringá, cantada pelo poeta que viu o desabrochar da manina encantada, nascida do seio da floresta, que eu não cheguei a ver.
            A cor viva da terra já havia se transportado por todo o corpo molhado do valeteiro, valente no trabalho, mas um pobre animal vivente às custas das esmolas conseguidas com o furar da picareta; um animal humano que de um tatu possído, cortava o chão vermelho para, mais tarde, ser depositada mais uma tubulação que transportaria as sujeiras da estação de tratamento de água até o córrego Morangueira.
            João Figueira, isso porque tinha grandes pés, músculos sobressaltados e olhar grotesco, cavava fundo; sua cabeça já era rente o nível do chão e dos lados morros erguidos cortavam-lhe a visão por completo.
            Tudo era som de morte.
            O baque surdo das picaretas ao fundo da valeta soava nele um coração enfraquecido e descompassado; a terra pelas pás jogada até mais alto que sua cabeça, formando montanhas, parecia-lhe enterrar-se a si mesmo. O corpo molhado de suor, e sujo, era o castigo que Deus mandara para puni-lo de tantos pecados; era a alma maculada e podre transportada para o visual, e o fogo do inferno já lhe tostava as costas, e ele era um suculento vitelo ao fogo.
            O Gato passa lento... Espia um a um atentamente, e a João, silente, mas fungando o peso do trabalho, nervos e raiva.
– Tá lento o serviço aí, Jão Figuera. Ansim cê num vai tirá nem o dinhero da pinga. Vamo deixá de moleza!
            João nem os olhos ergue. Apenas compassa mais as batidas da picareta e continua calado. Provavelmente, pensando na maldade dos homens, quando vê no Gato a existência de satanás, carrasco e intrigante, que vê preguiça em todos os esforços.
            – Cê num comeu bem hoje, Jão? Parece que não, gritou o Gato no intuito de se fazer respeitado. E continuou: ou foi a muié que resorveu jejuá antes da quaresma, hein, Jão? Cê tamém, Mané Cavadera. Tá pareceno um porco de veis. Desde cedo num saiu desse lugá. Isso aqui num é cova de defunto, não. Isso é valeta. E valeta tem que caminhá, andá sem pará; um quarterão, dois, treis e ir embora. Larga de moleza, Luís; corage, Baiano. É ansim que eu gosto, Zé Maria; força, Antonho, Paríba. Força, que no sábado tem pinga pra todo mundo.
            O som das picaretas soava mais forte, e a valeta andava feito cobra pelo chão.
            A criançada vadia já arrumava túneis nos montes de terra, escorregadores, guerra de torrões e muita encrenca com suas mães que os encontravam imundos.
            Apesar das surras, para as crianças, tudo era divertimento. Porém, da mesma forma imundo, sujo da cabeça aos pés, sujo até a alma, João Figueira remoía uma dor muito grande pela vida. Remoía o desejo de sair do fundo do buraco da terra e do buraco da vida. Remoía o desejo de deixar a vida de tatu; ir para casa quando a tarde cai, e limpo, de roupa limpa, pensamentos e até mesmo o hálito, encontrar Américo, Zé Luiz e Mariana, seus filhos. Desejava poder estar deitado à noite com o corpo sem cansaço e poder sonhar com Maria Antônia, a Tonha como ele falava; mas seu corpo esmagado pelo trabalho nem mesmo lhe permitia sonhar.
            Depois de o diabo findar o dia da tortura, recolhendo seu sol em fogo, João gastou uns bons minutos no bar do Gaúcho. Depois de gulosos tragos, chegou à casa e conseguiu forças para surrar Tonha, que chorou num canto encolhida e blasfemou o mundo inteiro, essa infeliz, pela sina que enfrentava como casada.
            Os vaga-lumes dos olhos alcoolizados de João ainda presenciavam muita besteira naquela noite, até que os filhos medrosos se aquietaram num canto de sono e Tonha se deitasse nua, pra que ele pudesse descarregar o resto de toda mágoa num adormecer animalesco.
            E a noite se passa... E o pensamento de João vaga através dela...
Mágoa, mágoa tão dengosa
Ou cansaço sem ter fim,
Eu em terra antes da morte
E a morte parada sobre mim.
Uma escuridão nua,
Mulher nua,
Ladrão na rua
Noite sem lua
E eu feito bicho, meu Deus!
Desabafo toda mágoa
Na água nódoa do sexo
Em puro instinto,
Num labirinto...
Meu Deus, que confusão!
Mais cansado, então, me vejo
E durmo, bicho estirado na enxerga.
Que batalha...
Noite, noite tão cigana
Que todo sono me abraça,
Que todo sono me engana.
Noite, noite cansativa,
Que nem o sono me descansa,
Que nem o despertar me ativa.
            As crianças a nada assistiram e quando despertaram, João já tinha saído, e Tonha já esfregava trapos encardidos no tanque.
            Joaquim Gato, o gato, parecia bem humorado e até cumprimentou o pessoal num rápido bom dia. Disse ainda que no fim de semana o dinheiro era certo.
            O grotesco desabafo parecia também ter melhorado a aparência de João, que já caía na valeta, cheio de disposição.
            O sol, também valente, subiu aceso e rapidamente os corpos cavantes eram lama.
            O verão tem dessas artimanhas.
            Quando a tarde veio, uma nuvem cobriu o sol e num instante choveu forte. O serviço parou. Muita água estava estancada no fundo da valeta.
            No fim da tarde ainda brilhou o sol, e a noite foi estrelada.
            Cedo, muito cedo, João, já cavando, parecia querer recuperar a tarde perdida, e quando as batidas soavam ritmadamente, um estrondo horrendo tudo aquietou. João estava soterrado por um desbarrancamento.
            – Todo mundo aqui pra desenterrá o Jão! Gritou desesperado Mané Cavadeira tomado de pânico.
            Joaquim gato chegou logo após e pediu que cavassem devagar, para não cortar o Figueira, mas era para cavar rapidamente, para ainda tirá-lo com vida.
            O cuidado, a pressa, o desespero. Tudo em vão.
            Meia hora depois, o Figueira era levado inerte pelos companheiros.
            Houve muito choro. Muitos valeteiros seguiram seu simples caixão, e Tonha, em lamentos, se esqueceu de todas as surras que levou e dos abusos do marido morto.
            Joaquim gato, Cavadeira, Zé Maria e outros, comentavam sobre a vida e a esquisitice de João, que cavava valeta sempre brabo, como se cavasse a própria cova. Pouco falava e, quando falava, era para maldizer o dia, o sol, a chuva, a mulher, os filhos, o Gato, a valeta e tudo mais que lhe atravessasse o caminho. Parecia andar com o capeta na boca, e todo fim de dia ia amargá-lo, tomando alguns tragos no Gaúcho.
            Tonha, meses depois, percebeu-se grávida. Pelos cantos choramingava a desgraça. Nem mesmo depois de morto o Figueira lhe deixara em paz.
            Já não bastava treis, dizia ela quando cedo acordava aos gritos os moleques e os mandava engraxar sapatos pela rua, enquanto ela lavava roupas.
            As valetas prosseguiram, muitos canos foram enterrados; com eles, muitos valeteiros.
            Tudo isso acontece, porém, para que se cumpra o objetivo da menina cantada pelo poeta, bela e pura, toda vestida de chita.
            O asfalto em betume brilha ao sol e sobre o passeio o tampo de aço permite, a quem penetrar, fazer uma visita até as profundezas da valeta.
            Hoje pouco é lembrado. O asfalto tudo cobsre, o tempo tudo apaga e o pobre tudo aceita, enquanto gatos, verões e chuvas continuam fazendo justiça, cada um à sua maneira, e o bravo cavador continua à procura de um lugarzinho na multidão.
            E a água corre pela tubulação...
 
 
 
           (7) PARÁFRASE À MINEIRA
 Ao poeta Carlos Drummond de Andrade
 
Quando eu nasci veio um anjo roxo
que de costas pra mim no cocho
revelou à minha mãe já decepcionada:
— Inculca nesse mocho aí que chora
que não se pode ser trouxa na vida
mas não adianta querer-se esperto
levando a vida nas coxas
ou se mudando pra Itabira.
Minha mãe fingiu não ouvi-lo
fingi também e mamei tudo que pude dela ,
e antes que ela pudesse me dizer:
— Vai, infeliz, ser bom de bico,
rabisquei meus versos
e me fiz descontente.
O resultado dessa rejeição ao anjo
é que hoje não ceifo e nem semeio,
mas cavalgo nos dorsos de Minas.
 
DONADON-LEAL, J.B. Antologia Poética. I Concurso de Poesia Linguagem Viva. S. P.: Scortecci, 1993: p.32
 
 
Denúncia em mão dupla
                        J. B. Donadon-Leal
 
Porta de coração não tem aldrava.
 
Uma campanha nacional
sem esperança
uni-self e uni-ceifa.
Ônus onde?
 
Um menino nas ruas de Mariana...
Um menino triste nas ruas de Mariana:
dona, me dá um trocado!
E se não der?
 
Uma menina nas ruas de Mariana...
Uma menina triste nas ruas de Mariana:
bacana, me dá um trocado!
E se eu te der?
 
 
 
ARTIGO
 
ALDRAVISMO, LEITURA E ACERVO
 
J. B. Donadon-Leal
 
            O texto é uma sepultura. Nele há abrigado um esquife. No esquife, um corpo. O texto, a sepultura, aparece, mostra-se, faz feição aos olhos dos leitores. O esquife como envólucro do corpo aparece até o sepultamento. É conduzido, apreciado, carregado, tocado, mas todos sabem que ele vai desaparecer na cova, será lacrado e aos poucos será atacado pelos vermes até se transformar em terra. O esquife, como envelope do corpo, com a forma do corpo, roupagem derradeira, é a superestrutura do texto, que o sustenta na forma, no sistema, na tipologia ou no gênero, conforme o olhar teórico. O corpo, por fim, matéria de rápida decomposição, água, terra, alimento, orgânico no stricto sensu, de parecer ser aquilo que o rodeia, de ser aquilo que o rodeia, de se transformar naquilo que o rodeia, é o discurso que recheia o esquife que recheia a sepultura.
            Ao contrário do que se pensa, a sepultura não esconde algo morto, mas expõe a porção de vida possível daquilo que se transforma em seu interior. A metonímia da sepultura é a da parte visível das partes que se processam nos seus interiores. É porta, apenas. Dentro dela uma forma, o esquife, tenta resistir à pressão dos segundos, do tempo ininterrupto, para que os discursos, o corpo, não se decomponham na voracidade veloz do tempo. Diante da sepultura, o ente chora, deixa flores e olha atentamente até fazer emergir a forma do caixão, para de dentro dele fazer levantar o corpo que fala, conta histórias, dá conselhos, recorda, caminha, sorri e chora. A sepultura é o acervo, o ente é o leitor.
            O texto é érgon, produto, monumento lapidar jogado para o desafio da imortalidade. Daí a pedra de que se edificam as sepulturas. O gênero sob a lápide é enérgeia, atividade mensurável de que se farta a transformação inexorável das formas, dos esquifes, no tempo. Essa atividade oculta nas entranhas da pedra implica a invisibilidade da modificação constante dos sistemas. Sistema e gênero têm uma relação de implicação; estão num mesmo plano superestrutura. A enérgeia nutre-se da dínamis, substância constitutiva da competência, do discurso, da idéia, do saber. Como substânica, a dínamis é amorfa, é fluxo apenas, impregnação de idéias na inconsciência alimentadora das ações nos sistemas em funcionamento; é macroestrutura.
            O aldravismo quer tocar não só nas matérias sólidas gravadas nos papéis, mas nos sistemas que sustentam a produção dos textos, e nos que sustentam a produção da leitura, além de tatear, no mais fundo possível, os discursos constitutivos desses sistemas. O aldravista é leitor de acervos com a fome dos cupins e das brocas na madeira do esquife e dos vermes na massa orgânica que o recheia. O aldravista, insaciável, nutre-se das energias emanadas e das substâncias fundantes de todas as tábuas cuneiformes, papéis tingidos de grafemas ou qualquer registro de sema capaz de resistir às corrosões do tempo. Note-se, no entanto, que o aldravista não tem dotes de restaurador. É apenas curioso. Toca, percebe, diz o que viu, alardeia a descoberta, toca trombetas, faz saraus, mas fecha o registro e deixa a lápide no mesmo lugar, escondendo as energias, os gêneros, as substâncias, os discursos, na sua transformação continuada e silenciosa.
            Que pretendem por aí restaurar os acervos, sei. Restaurar é inevitavelmente modificar a lápide. A obra restaurada é outra obra. A lápide restaurada é outra lápide. Restaurar é querer interromper a ação transformadora do tempo. Essa é outra atividade, interfere no tempo e atiça a ira de Kronos. Essa técnica de pôr estática na dinâmica não é própria do aldravismo, pois o aldravista não admite tocar só a superfície. Os homens e mulheres que descortinaram o século XXI sabem muito das superfícies. Daí a moda ser tão valorada e tão breve. Daí a industrialização das cascas belas, das lipos, das esculturas nas passarelas. Daí os palacianos xópins lotadinhos de tagarelas uniformizados, buscando azaração.
            Claro, a sepultura! Mas, a sepultura é a casca. Os utentes, esses seres que falam e ouvem simultaneamente, atuais não percebem os interiores, tal o apelo das fachadas, digo, das lápides. O aldravismo quer olhar lá dentro, levar choque das energias que povoam de ordenações os fazeres tão iguais, aos quais a crítica nega, em muitos casos, o valor de arte. Mais ainda, quer tocar a substância tão fluida, mas assustadoramente nutritiva e fecunda, que constitui a ereção de todos os acervos. O plano dos gêneros e dos sistemas, o esquife, é o da superestrutura, urdidura de intrigas fabulada no formalismo russo e tão luva ainda nas fabulações de toda ordem – apresentação, conflito, resolução. Esse caixão, carregável e visível nos instantes de féretro, isto é, na instância pragmática, tempos da produção do texto e da leitura, sustenta a massa orgânica de discursos e solicita uma lápide que represente a moda do tempo de seu sepultamento. Ou edição, como queiram! O plano dos discursos e das idéias, o corpo, é o da macroestrutura, complexo de temas, tópicos, tabus, interdições, virtudes, prescrições, permissões, ordenações, violações, agremiações, associações, etc., etc., etc., que obriga os utentes a escolhas, dínamis in facto.
            O texto é superfície. O gênero é a primeira instância de profundidade. O discurso é a profundeza. Capa, estrutura e essência. Só a capa se mostra. Por isso é que há equívocos profundos em várias teorias derivadas da Semiologia. Tentaram explicar o texto, olhando só o texto. Ou olhando outras lápides, igualmente só textos, no que se chamou de intertexto. A tal da intertextualidade é, concordo, propriedade, mas de edificação de lápide, de sepultura, de casca. A intertextualidade não explica o fluxo de energias sistêmicas, nem a fruição discursiva, esta sina lavoisieriana na têmpera dos organismos. Para ver os interiores é necessário bulir nos discursos impreganados, porque em estado de decomposição, nos sistemas. A propriedade é a interdiscursividade. Só a experiência construída da vivência de leitura habilita a emergência dessa propriedade. É o mesmo que tocar em algoo que não existe mais, pois parece devorado pela razão do instante passado, sepultado. O acervo é tocado por outro acervo – uma experiência que toca o registro, igualmente experiência. A aldrava, a inferência.
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ALDRAVISMO E ENERGIA
J. B. Donadon-Leal
 
 
            Tratar da superestrutura é tratar da organização narrativa que sustenta o texto, dá rigidez na sua textura e livra o tema da expiação. É nível intermediário de fluxo. A lápide de que falamos no Aldrava anterior cobre o movimento das vozes, de cujas origens trataremos num próximo texto, previsíveis nas construções discursivas. A Semiótica greimasiana chama atenção a essa previsibilidade, oferecendo dados para que o escritor/leitor possa ver a estrutura narrativa (apresentação do problema / intriga / resolução) em todo e qualquer texto, desde o simples bilhete até a mais complexa tese. Por outro lado, alguns discursos básicos mesclam a tessitura do comportamento discursivo, recorrente, pois derivado dos discursos de persuasão, com a descoberta, a aplicação da descoberta, a justeza perante a lei, e a divulgação; do de sedução, com a crença e do de manipulação, com a burocracia. A sobrevivência de um poema, por exemplo, dá-se no preenchimento do horizonte de expectativa em inovar, tendendo para a eternidade, denunciar o presente próximo, mas invisível, e buscar soluções aos perenes vícios do poder, este tema que povoa a crônica política desde tempos imemoriais.
            Arrisquemos uma mostra dessas recorrências, que me sói bater sempre e sempre à cabeça, pois relevantes nos mais distintos exercícios de poder. Qualquer semelhança à fortunas de conhecidos homens públicos da atualidade não é mera coincidência:
Carta oitava (Cartas Chilenas, Tomás Antônio Gonzaga) (trecho de abertura)
Em que se trata da venda dos despachos e contratos
 
Os grandes, Doroteu, da nossa Espanha
têm diversas herdades: umas delas
dão trigo, dão centeio e dão cevada;
as outras têm cascatas e pomares,
com outras muitas peças, que só servem,
nos calmosos verões, de algum recreio.
Assim os generais da nossa Chile
têm diversas fazendas: numas passam
as horas de descanso, as outras geram
os milhos, os feijões e os úteis frutos,
que podem sustentar as grandes casas.
As quintas, Doroteu, que mais lhes rendem,
abertas nunca são do torto arado.
Quer chova de contínuo, quer se gretem
as terras, ao rigor do sol intenso,
sempre geram mais frutos do que as outras,
no ano em que lhes corre, ao próprio, o tempo.
Estas quintas, amigo, não produzem
em certas estações, produzem sempre,
que os nossos generais, tomando a fouce,
vão fazer nas searas a colheita.
Produzem, que inda é mais, sem que os bonschefes
se cansem com amanhos, nem ainda
com lançarem nos sulcos as sementes.
Agora dirás tu, de assombro cheio:
“Que ditosas campinas! Dessa sorte
só pintam os Elísios os poetas.”
Amigo Doroteu, és pouco esperto;
as fazendas que pinto não são dessas
que têm para as culturas largos campos
e virgens matarias, cujos troncos
levantam, sobre as nuvens, grossos ramos.
Não são, não são fazendas onde paste
o lanudo carneiro e a gorda vaca,
a vaca, que salpica as brancas ervas
com o leite encorpado, que lhe escorre
das lisas tetas, que no chão lhe arrastam.
Não são, enfim, herdades, onde as louras,
zunidoras abelhas de mil castas,
nos côncavos das árvores já velhas,
que bálsamos destilam, escondidas,
fabriquem rumas de gostosos favos.
Estas quintas são quintas só no nome,
pois são os dous contratos, que utilizam
aos chefes, inda mais que o próprio Estado.
 
            Que gritavam, se não isso mesmo, os roqueiros mártires da aids, ídolos das massas colegiais nas décadas fechamentosas do vinte?
            Se a lápide insuspeita e fria, petrificada é apenas a porção visível de amálgama em fervura num interior lacrado, a estrutura intermediária, de que tratamos agora, previsível e exposta, é apenas algo concreto, discurso real de descrição das relações viciosas do poder, seja do Estado, seja de pessoas comuns, seja de instituições fechadas, como as familiares, ou públicas, como escolas, igrejas, imprensa... O poeta tem que estar atento a essas relações e relacionar-se libidinosamente com essa energia chamada estrutura narrativa.
            Não custa conferir as notícias velhas, aquelas das Cartas Chilenas, as que motivaram as aventuras de Sancho Pança, as que aguçam a gula de Ulisses por reinos, além do de Ítaca, sem pensar nas conquistas romanas, portuguesas, espanholas, francesas, norte-americanas, russas; da Rede Globo, do SBT, da RTV, da Rede Vida; Ratinho, Sílvio, Jô, Faustão, Sandy & Júnior, Gugu, Xuxa, Galisteu... De senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, juízes, promotores, delegados, guarda de trânsito, professores, garis...
            A poesia envelheceu, morreu e está sob a lápide de antologias escolares. Vez em quando velhos professores lembram-se de reunir precoces saudades em jovens alunos que declamam poemas pelas belas ruas de horríveis pavimentos de Mariana. Entre um tropeço e outro, as vozes veladas por zelosas mãos renascem das páginas amareladas dos acervos.
            Energia nova à poesia. Novas batidas nas aldravas insistentes nas capas duras dos livros que teimam em manter fechadas as páginas da história da humanidade. Diferentemente dos combustíveis fósseis, a energia discursiva é renovável.
 
 
 
Aldrava e subjetividade
J. B. Donadon-Leal
 
            Das reflexões todas que me ancora na consolidação do cânone aldravista, a questão da subjetividade na linguagem ainda carece de algum empreendimento. Trata-se da construção da idéia de Sujeito, aquele que se constitui cada vez que toma a palavra. Esse ser, aparentemente autônomo, que se considera EU e se dirige a um TU, assume, a cada ato de fala, um papel distinto. Ao enunciar alguma coisa, sua denominação sofre uma espécie de constrangimento em função do interlocutor, do lugar em que se fala e das circunstâncias dessa fala. Esse EU passa a ser um ator de fala: quando se dirige ao filho, esse EU é pai; quando se dirige à esposa, esse EU é marido; quando se dirige a um colega de trabalho, é colega; quando se dirige ao chefe, é empregado; quando se dirige a um vizinho, é vizinho, e assim por diante. O que institui essa mudança de papéis é o constrangimento, este que produz a emergência do Sujeito da fala - um ser maior que o EU, indivíduo, e integrado aos papéis sociais. Portanto, Sujeito é o ator que fala por mim, utilizando-se de meu corpo. Essa atuação cênica, automatizada, instaurada no inconsciente, demonstra a grandeza que é o Sujeito. O Sujeito compreendido como grandeza, passível de variação, em função não orientada, circula no universo constituindo-se a cada ato, com a relativa autonomia de poder transformar os sentidos consolidados. Esse Sujeito é construtor de semioses. Cada vez que alguém usa a palavra gato, dirigindo-se a uma pessoa e não ao felino, produz uma semiose, pois transporta características e traços de beleza do animal de estimação para o homem. Não é algo banal como a metáfora, mas um acontecimento autorizado pela sociedade de possibilitar a transformação de seres e a transformação da própria linguagem, sem pôr a estrutura da língua em cheque. Há, na verdade, um percurso discursivo, de instância sintagmática, na linha da frase, seqüencial, de uma palavra após a outra, que inscreve contextos temporais, espaciais, sociais, culturais e históricos de autorização para a transformação de significações velhas em significações novas. Trata-se de um EU, sujeito cognitivo, como diz uma das psicanálises, em jogo com o mundo concreto através do sistema semiótico, isto é, através das linguagens disponíveis (língua, música, pintura, escultura, mímica etc..). O constrangimento do mundo concreto constitui aquilo que uma dessas psicanálises denominou de Grande Outro, funcionando como objeto do desejo e pressionando o olhar do Sujeito para uma determinada direção. Sujeito, portanto, é um jogador, melhor dizendo, um administrador de conflitos e driblador de constrangimentos ou de pressões discursivas e capaz de organizar o mundo. Explico, por mais que o mundo seja organizado, os discursos dessa organização não são concretos, no sentido de palpáveis, pois são amorfos, isto é, são forma sem forma, sombra, reflexo. Não se pega um discurso como se pega uma caneta. A caneta é concreta, mas há no ato de se pegar uma caneta um discurso que me obriga a pegar uma caneta e que me diz o que fazer com ela. Se a utilizo para escrever algo cumpro com uma expectativa social e faço coincidir a utilização com a sua finalidade industrial; se a utilizo para prender o cabelo, transformo sua função primeira, construo uma semiose e a transformo em palito de prender cabelo; se apenas a seguro e começo a bater uma de suas extremidades na mesa, numa reunião, transformo-a em discurso de impaciência, numa outra semiose. A cada uso, uma semiose. Esse jogo de transformações discursivas também justifica a constituição desse Sujeito. O mundo ainda se organiza por convenções e normas. Por exemplo: uma rua se auto-referencia, tendo início e fim, com números pares indicando seu lado direito e ímpares indicando seu lado esquerdo, porém a escola prefere adestrar as crianças, já na pré-escola, a tratar das referências das coisas com a produção da prepotência – se eu estiver saindo, minha casa é do lado direito; se estiver chegando, do lado esquerdo. Isto significa a construção do EU, do individualismo e não a do Sujeito, percebedor das referências do mundo, para se autorizar jogador e modificador dessas referências, no intuito de produzir novas referências, nesse jogo de construção de semioses. O mesmo acontece com o poeta aldravista: ele joga com as estruturas consolidadas da construção da estética e da forma poética, para, mesmo sofrendo o constrangimento das normas da poética, quebrar com as regras que pressionam e oprimem. O poeta aldravista é Sujeito e busca sacudir o Sujeito que há em cada um na busca de uma tomada de posição diante das referências do mundo. Para criticar algo, antes é preciso saber de seu funcionamento. Para derrubar alguma coisa, antes é preciso conhecer sua resistência. Para abrir uma porta, que tal bater na aldrava?
 
 
 
Amor, poesia e mutilação
J. B. Donadon-Leal
 
            Diz-se do poeta aquele sofredor inveterado ou galanteador irrecuperável. Há, por certo, nisso, uma confusão entre o eu-lírico e eu-empírico; este, corpo de carne e osso, portador do primeiro. Independente, porém, de qualquer aparente confusão entre os entes construtores da poesia, há em comum neles a experiência do amor e da mutilação. Poeta que é poeta experimentou os extremos do amor: o prazer e a dor. Assim, o prazer é o toque no clímax, no apogeu da felicidade ao alcance das possibilidades de realização no amor; a dor é o toque na mutilação, toque no extremo da perda, seja ela a da liberdade, da felicidade, do prazer, da confiança. O corpo mutilado, normalmente, é o do eu-lírico. Nada impede, porém, que deliberadamente o poema seja confessional, dedicado, declarado, em função específica de reparação de uma perda ou de reavaliação de uma aventura amorosa do eu-empírico. Se, para alguns, atualmente o amor soa anacrônico, se ele não é pós-moderno, o aldravista considera atual o amor e anacrônico o pós-modernismo. Este, sim, já foi superado; sucumbiu com as torres gêmeas.
            Assim como a nicotina e o alcatrão, que causaram a morte de George, o Beatle, o amor é altamente cancerígeno. Ele desfigura cada célula do corpo e monta tumores a espalhar metástases. Cada tumor retirado leva consigo um órgão, um pedaço de pele, um membro, uma parte, enfim, que desfigura o corpo integral. Configura-se a mutilação. Não há como um poeta evitar a contaminação do amor que desfigura os corpos e as mentes para a liberdade. O amor é câncer e cárcere. O amor é fascista e ditador. Mata sorrateiro como o cigarro, com as armas da sedução, da fantasia, do prazer. Cria dependência. Nutre a dependência e constrói uma muralha que impede a visão do outro. Constrói uma surdez que impede a chegada das palavras de alerta e de prevenção, que o outro, aquele que divide o amor, pode deixá-las escapar das bocas imperiosas do medo. Igualmente ao fumante, o amante é covarde. O fumante acende o cigarro para não ter que assumir a resolução do problema que tem pela frente; o amante, por amar, foge de dizer o que tem que dizer, por medo de ferir a pessoa amada. Foge, então, para o poema. O poema é o cigarro que revela a covardia do poeta. Este, sai de si, para assumir um outro, um eu-lírico, narrador, personagem, que fala por ele e assume todas as conseqüências desse amor vivenciado e claro.
            Por outro lado, sem criar contradição com as dependências já expostas, se não fosse covarde, o poeta-amante assumiria seu amor com as narrações testemunhais dos evangélicos. Assumiria sua condição de convertido para o amor. Deixaria para trás todas as experiências anteriores, todos os vícios, todas as aventuras e desventuras e se entregaria para a eternidade do amor que se apresenta como real e salvador. O poeta acredita no amor, pois não é capaz de declinar-se de Vinícius ao confessar: “quem passou por essa vida e não sofreu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu”. Essa confusão entre poeta e personagem poética faz da poesia o enigma necessário para a arte do verso. Ao mesmo tempo em que o leitor diz Vinícius, ele o diz para si mesmo. Ele declama à sua amada um verso do poeta, mas o declama como se dele próprio o fora. Não se trata de fingir amar, mas de assumir todas as dificuldades de expressão do amor, valendo-se de quem, com propriedade, o fizera, nos versos, para revelar-se, integralmente apaixonado e convertido para todas as mudanças requeridas pela condição nova: a condição de amante incondicional.
            Há, no entanto, uma distinção entre corpo mutilado por acidentes ou por cânceres extirpados e alma mutilada por amor. Enquanto a mutilação do corpo é experiência de perda de partes, com cicatrizes e marcas a serem escondidas, ocultadas por plásticas e próteses, a mutilação da alma não se dá na perda, mas na superação, na sensação de deixar de ter o vício anterior, na decisão de modificar-se para o outro, na conquista de um novo humor. Não se trata de perda, simples e pura, mas de substituição integral. Não se trata de buscar uma prótese, ou uma plástica, que restaurem a imagem anterior, mas de uma negação dessa imagem anterior com todas as suas mostras de virtudes e vícios, para permitir o nascimento de uma nova alma, vazia das experiências anteriores, em total disponibilidade para os desejos de descoberta do amor.
            Sem experimentar qualquer contradição com a realidade empírica do poeta, o amor e a poesia, ao negarem a possibilidade da mutilação do corpo, instauram a experiência sublime do amor, esta que é capaz de criar realidades, construir relações duradouras e plenas de prazer. Daí o eu-lírico não se confundir com o eu-empírico. Um poeta tristonho e ríspido é capaz de produzir um poema com lirismo fino e com a delicadeza alegre e terna dos mais requintados apaixonados. Ou um poeta humorista produz um poema mórbido. Só quem ama pode entender os humores da alma. Só o poeta pode transitar por esses humores, sem remorsos. Basta bater as aldravas das portas. E estas estão disponíveis. Os poetas sairão inteiros da aventura de amar? Claro que não. Sairão mutilados, no corpo e na alma. Mas, vale a pena a dor de amar. É dor que fere, não a pele, mas o prazer. O prazer, na dor, jorra-se de saciação.

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  10.06.2008  

  

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