|

CATARSE
Ariovaldo Cavarzan
Era feito um frêmito,
etéreo e fugaz,
uma aragem,
uma vibração,
um hausto que arrepia,
uma compulsão.
Deixou impiedosa saudade,
mergulhada em noite escura,
feito tempestade
enfeitada de dor, vazia,
eis que foi volúpia, vontade, sonho, loucura,
grito abafado no peito,
soluço entrecortando pranto,
foi entrega e desamor.
Ficaram marcas de espinho,
de caule de extinta flor,
esturricado, cruel,
tombado em seu caminho,
eis que foi desatino,
procura, pesadelo, estupor.
Era feito brisa fresca,
vôo de pássaro em calmo céu,
eis que foi sonho, mergulho,
favo de doce mel,
galho impedindo queda,
no escuro abismo
de almas ao léu.
Foi bem-querer que equilibra,
sopro brando que afaga,
feito doce flutuar,
que acode o peito
e faz sonhar.
Foi visgo em coração arredio,
vagando entre o fim e o pulsar,
colado a apertado peito,
ansiando onda a navegar,
nas águas da ilusão sem jeito.
Ao ir-se embora,
legou cheiro de mar,
quebrando na fina areia,
eis que foi loucura, compulsão,
borrifo de lágrima molhando a face,
fímbria de janela
espancando a escuridão.
Foi alegria, gozo e paz,
e depois foi dor,
cometa riscando o espaço,
faiscante de luz e cor,
sem saber onde aportar.
Foi luar que filtra estrelas,
foi abraço, amasso,
entrega, acolhida,
desvario, desmaio,
despertar e adormecer,
eis que foi começo
de novo amanhecer.
Foi sentimento, entrega, paixão,
noite que se fez dia,
tênue linha de horizonte,
palpitante de emoção.
Foi flutuar sobre escolhos,
foi verdade e ilusão,
foi sombra benfazeja,
água fresca que sacia,
luz que se irradia,
eis que foi ternura e encantamento,
foi Amor...
27/03/2009

Recomeço
Ariovaldo Cavarzan
Lembranças me acodem
em tons esmaecidos,
de um outrora
caleidoscópio multicor.
Fatos, retratos,
momentos de tempos idos,
no painel perdidos
de vividas recordações.
Alegria, dor e saudade,
sonhos, idealizações,
sorrisos e lágrimas plastificados,
esperanças de um mar
de felicidade...
Qual rejeito de navio,
remanesce fina areia,
lentamente escorrida
em ampulheta sem cor,
entregue tão só
à gravidade do tempo,
que é lei de vida.
Outrora, fragmentos de cores,
agora simbiose de pó,
documentos de amores,
monótono ritual de descida,
até que nada mais reste
e houver chegado
a hora de recomeçar.
20/05/2009
Essência
Ariovaldo Cavarzan
De priscas eras sou viajor,
retirado de um todo
e convertido em rastilho,
incandescido ao sopro do Criador.
Espraio-me por entre mundos,
ora irradiando luz,
ora ofegando ao peso da cruz.
Sou corisco capilarizado,
seguindo em linha reta,
ou ensandecido em desvios laterais,
como se fossem teias,
ou sangue que corre nas veias,
quais rabiscos serelepes de luz,
esculpindo gráficos iluminados
em matrizes de escuridão.
Cada viagem minha,
comparada à eternidade,
é átimo de faísca elétrica,
ou de relâmpago que fende nuvens,
iluminando a vastidão.
Meu corpo é roupa emprestada,
a ser desvestida ao final de cada jornada.
Sou hóspede e aprendiz da vida,
buscando imprimir bom jeito
às coisas da lida,
para tornar cheio de paz
o meu peito.
Sou centelha divina,
minha essência é o amor;
sou laço, abraço,
alma, espírito, paixão.
Sou coração.
07/06/2009
O RITO DO CLARÃO
Ariovaldo Cavarzan
O tempo das lágrimas se foi,
exaurido em lidas de afetos,
em adereços de calmaria e dor
e enredos de sonhos concretos.
Caravana de arautos e suas trombetas,
proclama o esperado fim
e a mansa chegada da paz.
À ansiosa quietude de agora,
sobrevém suave vibração,
recompondo lembranças de outrora.
Canoro é o canto das aves
que levam para longe
derradeiros resquícios de amor,
guardados em corações combalidos,
desvestidos de fantasias e ilusões.
Diáfanos vultos se desenham no ar,
moldando fumacentos filetes,
que bailam ao sopro
da aragem, ordenando o caos
e outorgando formas nervosas
a imagens de tempos idos,
coreografando um rito de conclusão.
Descompassadas batidas
ainda fazem pulsar corações,
em estertores de hora fatal.
Não se chorem agora os mitos do amor.
O ensejo das lágrimas passou,
e é chegado o instante da ansiada inércia,
na mansa paz dos vividos na dor.
Silhuetas de fumaça flutuam no ar.
Vem chegando o cortejo de arautos
e suas trombetas,
proclamando o final.
As aves canoras já foram embora
e um clarão no horizonte
anuncia a chegada da hora de descansar.
06/10/2009

Biografia
POESIAS
|