TEM O PODER DA ÁGUA
José António Gonçalves
Para a Hermenegilda

tem o poder da água a força que doma o relâmpago
a invernia a bruma da Ponta de S. Lourenço
e faz estremecer de silêncio a luz breve
que recorta as Desertas ao fundo esperando apenas
pelo ruído das gaivotas ao amanhecer

tem o poder do vento o alento que sugere
a subida aos píncaros dos arbustos do Poiso
onde às vezes se colhe o granizo dente-de-cão
estendendo devagar os dedos na mão aberta
só porque faz frio e sabemos que choveu

tem o poder das nuvens revoltas o medo da Travessa
comovendo os marinheiros de outras eras em sobressalto
quando o mar se abre em abismos e fronteiras
revelando o paredume invicto de descobertas e labirintos
onde brincam cegos os peixe-espada-pretos

tem o poder da água do vento e das nuvens
o tempo que devasta o fogo das clareiras nas serras
onde as crianças buscam sonhos e os pássaros hesitam
na abordagem dos ramos secos das árvores temendo a noite que não chegará nunca

todos esses poderes renascem afinal
sempre que as montanhas se desfazem devagar
na imensidão das planícies
abrindo vales onde antes havia muros
e construindo homens no lugar das casas




(in "Os Pássaros Breves", Colecção
"O Lugar da Pirâmide", nº. 38, posfácio de João Rui de Sousa, Ed. Átrio, Lisboa, 1995)
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  02.06.2009  

  

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