DOCE PRISÃO
Amilton Maciel Monteiro

O vai e vem do mar beijando a areia
Se assemelha à nossa vida a dois:
Também nos prende bem uma cadeia,
Que solta um pouco, e já retém depois...

Não cansa o sangue o seu volver na veia,
Nem eu por ser seu prisioneiro, pois
Você não é prisão que aperreia,
Como a que força à canga os mansos bois.

Se pra ser livre eu tenha que deixar
A minha praia ou minha artéria, o quê,
Além de desengano irei achar?

Prefiro estar cativo no ambiente
Que amo tanto, tanto, e que é você;
E ser feliz assim... eternamente!




CHORAR DE AMOR
Amilton Maciel Monteiro


Chorar de amor! Oh! Quem já de uma feita
Jamais chorou, talvez, igual criança,
Que após um susto chora, satisfeita,
Junto à mamãe, que afaga sua trança...

Chorar de amor! Chorar por ver desfeita
A nuvem negra da desesperança...
Deixa chorar quem hoje se deleita
Por ver que o seu sofrer virou bonança...

Chorar assim de amor só vale a pena;
É banho refrescante em nossa alma,
Que acaba com qualquer desilusão.

Chorar de amor! Bendigo esta cena,
Início bom de prodigiosa calma,
Que tanto bem nos faz ao coração!



EXPERIÊNCIA
Amilton Maciel Monteiro

Já quase cinqüentão tomei da pena,
Tentando transmitir as impressões
Que a vida, ora aflita, ora serena,
Me destinou demais, em turbilhões...

Da ingênua infância, alegre, doce, amena...
Comigo trouxe mil recordações...
E muito mais da fase não pequena
Que perdurou a idade das paixões...

Talvez se eu disser o que senti,
O que enxerguei e ouvi, o que vivi,
E o mais que aprendi no mundo, à beça,

Alguém consiga errar menos que eu,
E creia na lição de quem sofreu,
Mas entendeu: amar é o que interessa!




EXEMPLO
Amilton Maciel Monteiro


Ah! Como sinto o peso da saudade
De meus longínquos tempos de criança,
Vividos na escassez, é bem verdade,
Mas com imenso amor e confiança!

A gente era pobre, e a cidade
Nem tinha luz ou mesmo a segurança
De algum Doutor. Mas nessa realidade...
Aquilo é um sonho em minha lembrança.

O importante é que então vivendo
De modo simples, “remendando o pano”,
Só com carinho a gente ia crescendo...

A grande fé em Deus nos consolava,
Mudava em esperança o desengano...
Tal o exemplo que mamãe nos dava!



DOCES LEMBRANÇAS
Amilton Maciel Monteiro


A rua principal era uma antiga estrada
Que conduzia ao Rio as produções paulistas.
E em caminhões de carga xucros motoristas
De quando em vez passavam em louca disparada.

Em meio a um poeirão, e à falta de outras pistas,
A molecada armava ali sua pelada...
E nos degraus de pedra, à beira da calçada,
As moças fomentavam poses dos ciclistas...

A rua-estrada era o centro da cidade!
Pois se alinhavam nela, a venda, o bar, a Igreja,
A Santa Casa, a escola, o clube... e na verdade,

Casebres onde aranhas punham suas teias...
E o saudoso “footing”? Por mais não seja,
Me corta o coração por ter deixado Areias...

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  15.05.2009  

  

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