Medula
Por Renã Leite Pontes


A leite o teu peito se há negado,
razão que não nos turba ou encabula,
pois tens no ventre o “Cálice Sagrado”
e eu, o sangue dos Deuses, na medula.

Dentro de mim, o “Sol de Brahma”, azula.
dentro de ti há branco... imaculado
do amor (jamais sentido ou já provado)
que quanto mais se dá mais se acumula.

Neste conúbio que o céu testemunha
somos o “summu” deste éter vicunha: 
nós dois, o fogo, a terra e o oceano.

Quando chegar a hora apropriada
virá do ventre que não nasceu nada
O bom que pode haver no ser humano.



Vida e Morte Chico Mendes 
Por Renã Leite Pontes
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Dedicado, com carinho e respeito, 
ao Mártir Seringueiro acreano Chico Mendes.

O Chico na mata lá vai toque toque
sensato, rebelde e amigo... Ele é pai!
levando a poronga e faca ele vai...
defende a floresta de balde a reboque.

Defesa da mata é motivo de choque,
qual choque de frio da chuva que cai.
jurado de morte, pra luta ele sai
pedindo a justiça que o mal não lhe toque...

Quem sabe se a mata ficar bem cuidada
não para esta raiva do rude inimigo
que quer toda a mata refém da boiada.

Cilada composta de grande perigo:
tão moço, seu Chico, tombou de emboscada
com tiro que pega do peito ao umbigo. 



O Crime do Poeta
Por Renã Leite Pontes

Ao poeta neoclássico André Chénier1, guilhotinado em 1794
e, também, ao poeta “Inimigo Número Um” da Ditadura
Militar, Carlos Marighella, abatido covardemente em emboscada
organizada pelas forças da ditadura, em novembro de 1969, na
cidade de São Paulo; lembrando que matar poeta, principalmente
pelo “crime da poesia”, dá sete anos de azar (também para a
Nação).


Fui condenado à morte certa, injustamente,
por um júri severo e, de fato, inclemente,
por cantar a salvação...
urdida a mais severa das temeridades,
disseram que os meus versos pelas liberdades,
eram afronta à Nação.

Foi o dia mais triste que vivi na vida...
quando a dura sentença foi por mim ouvida,
me sangrava o coração:
– Quem tem com que nos pague não nos deve nada!
– Pagarás os teus crimes todos, camarada!
– Para ti não há perdão!

Assim, não mais fui bom e nem também benquisto.
tive meu nome inscrito em sinistro registro
e lançado na prisão.
senti ânsia severa de correr pra fora...
pensei: estou pagando esta falta agora,
pra salvar meu outro irmão.


1-Insolente autor da controvertida 
“Ode à Marie Anne Charlotte Corday”, 
poema que parece haver contribuído 
decisivamente para sua execução.



II
Passei dias e noites no esquecimento.
esperei refazerem o tal julgamento
que prejudicou a mim.
meus algozes privaram-me da poesia
nos outros, sim! Por medo, em mim ninguém batia:
isto foi menos ruim!

No tétrico presídio, sofrendo meu fado,
com homens e mulheres, fui eu misturado...
estava a Cláudia também.
encontrei a moçoila tão linda e branquinha
bem quis deitar a sorte dela junto à minha.
para tudo eu disse amém.

Os dias de tristeza vão lentos passando...
um dia a linda moça eu terminei amando:
a mulher engravidou.
eu, preso, fui privado de dar-lhe assistência
na cela do meu lado, pedindo clemência
uma menina inspirou.

E geme a mulher peja, com tal barulheira,
que o terror flui por toda a minha pele, e cheira
ao fedor desta prisão.
se a lua sai suave, cheia de desgosto,
o apagar das luzes tem preço e tem gosto
da tal privatização.


III
Fiquei por inimigo dos nobres costumes.
eles queimam com ódio todos os volumes
dos poemas que escrevi.
ao destrancarem minha cela, vêm, me puxam.
as mechas dos cabelos nas cordas se fixam,
ai! Que dores que eu senti.
E em riste os lanceiros vão ao parapeito.
trociscas lanças cravam no meu pobre peito
com bastante intrepidez.
meu grito seco ecoa ao peso do açoite,
do peito flui o sangue arterial, na noite
e, me matam de uma vez.

Meu sonho cai crivado, olho pra minha filha
e pra maldita herança, qual barco sem quilha
que para ela vou legar.
com uma carranca má e sinistra aura tétrica
os especuladores da energia elétrica
conseguiram me matar...

Não desfrutei da honra da ampla defesa,
meu corpo com sua alma a mantiveram presa:
“por que não me chega a luz?” 
as minhas pernas tremem, voa o sentimento.
esvai-se do meu corpo o derradeiro alento...
oh! Valei-me, meu Jesus!



Paráfrase prosaica (à moderna) da fábula 
“O cordeiro e o lobo” de Jean de La Fontaine
Por Renã Leite Pontes

Porque queimadura na carne do boi é churrasco, 
entretanto, é menos vergonhoso sofrer uma injustiça do que praticá-la.

– O que fazes aqui neste espaço bancário angariando mais empréstimos?
– Senhor! Eu estou providenciando recursos para edificar um novo aprisco para mim e minha família, depois que vossa fineza fez anunciar a demolição da minha modesta moradia!
– Como te atreves a dirigir-me a palavra! Todos vocês deviam saber que eu não resolvo problemas em “meio de rua”.
– Mas, ilustríssimo. Eu apenas respondi o que me foi perguntado!
– Ocorre que tenho algo contra aqueles que não me têm a serventia do boi! E... mais um agravante: no ano passado, você maltratou meu “fiscal de produção”. Isso consta nos meus relatórios!
– Mas, excelência! Nós já estamos em novembro... e eu tenho pouco mais de seis meses de vida...
– Não importa! Se não foi você, foi seu pai, seu amigo ou seu avô...
E... mais rápido que a perna da gazela silvestre, o lobo mau ordenou a demolição daquela (agora apenas) “Saudosa Maloca”. Poderosas máquinas tomaram posição, alavancas encaixaram-se, toscos pés aceleraram e: ruumm, vrummm ...
Moral da História: nem Sócrates! Nem a “Apologia de Sócrates” seria capaz.

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  11.11.2009  

  

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