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RUBAY
Paulo Monteiro
Neste mundo de coisas abjetas,
onde falam por Deus falsos profetas,
da mesma forma que nos tempos bíblicos,
Deus fala pela boca dos poetas.
RECEITA DE PAI
Paulo Monteiro
Um dia me levavas pelas mãos e eu te pedia:
– Pai, pára! que eu não agüento mais!”
Outro dia, em que minhas mãos te conduziam,
Exclamaste:
– “Pára, meu filho, que estou cansado!”
Cansar, meu pai, sempre cansaste,
Mas agüentas todos os pesos,
Suportas todas as caminhadas...
De ti, quando nos separarmos deste mundo,
Guardarei as lições que me deixares,
Lições que espero legar às minhas filhas.
Não me pedes. Ordenas.
Ordens duras, às vezes.
Ordens que me fazem afastar-me cabisbaixo.
E chorar baixinho.
Nem sempre consigo entender-te.
És tão duro contigo.
E é mais duro para entender-te,
Pois o bugre que guardamos em nossos peitos
Luta constantemente com nós mesmos.
BIOGRAFIA
Paulo Monteiro
Velho gaúcho – Insaciável
De fazer aos mandões guerra,
Nestas páginas encerra
Por um pendor invencível –
Seu amor – Incorrigível
Às tradições desta Terra.
AMARO JUVENAL [Ramiro Barcellos],
in Antônio Chimango.
SONETO BRANCO
Paulo Monteiro
Quando te escuto ou vejo me parece
conhecer-te, querida, há tanto tempo
que até nos vejo lentos de mãos dadas
passeando entre vergéis no Antigo Egito.
Depois eu te contemplo inda mais bela
colhendo as uvas mansas de Salém
e me imagino o próprio Salomão
para ofertar-te um reino em minha lira!
Mas como não sou rei, nem sou poeta,
se não posso ofertar-te o que mereces
deixa ao menos que eu viva o meu exílio.
Deixa fugir de ti, curvado ao peso
deste amor que me torna inda menor,
com medo de perder-me nos teus braços.

SONETO BESTIALÓGICO
Paulo Monteiro
Um soneto perdido entre dois versos
parece-nos dizer quanto sentimos
fugir a inspiração quando tentamos
contar em verso o que nos toma conta;
um soneto perdido entre dois versos,
que tentamos unir multiplicando
por sete vezes dois, já nos recorda
mil simbolismos até mesmo bíblicos;
e depois de infinitas tentativas,
em que gastamos tempos ou neurônios,
resta-nos a conclusão fatal que
não há nada mais triste neste mundo
que ver sobrar depois de tanto esforço
um soneto perdido entre dois versos.

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BIOGRAFIA
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