TEIAS

Isabel C. S. Vargas

O ser humano não foi feito para viver só e sim para conviver, partilhar experiências. É importante estabelecer relacionamento, formar teias que o mantenha ligado, entrelaçado com outros de maneira que ele possa circular entre estes ligamentos e deles extrair segurança e se fortalecer. Não para se sentir prisioneiro, mas para que possa se sentir firme e ser impulsionado para realizações proveitosas.
São teias formadas pela família, pelos parentes, pelo vizinho, companheiros de grupo, pelo colega de trabalho, primordialmente por aqueles com quem é possível fazer trocas sinceras, que produzam sentimentos bons, que façam o indivíduo se sentir e ser melhor, abandonando pessimismo, egoísmo, orgulho, e qualquer outro sentimento que produza efeitos negativos como mágoa, raiva, ódio, vaidade ficando mais leve para alçar vôos que permitam ter o espírito livre para conquistar a paz e alegria de viver.
É mais fácil quando o indivíduo está comprometido em viver e transmitir otimismo, amor em cada dia de sua existência. Não é fácil, mas para que isto ocorra é necessário estar bem consigo mesmo, satisfeito com o eu interior, com as próprias realizações, consciente de como deseja viver, das metas que quer atingir.
Só se abre para uma vivência compartilhada e que valorize o outro aquele que tem auto-estima satisfatória, que se sabe importante, único e reconhece a importância do outro.
Este tipo de pessoa vive com generosidade, sem preocupação de estar sempre certo, de ganhar, pois o que deseja é ser justo, construir bases sólidas que tanto serve para aparar àquele que cai como para impulsionar quem deseja ir em frente com a segurança que tem conexões fortes para nelas se reabastecer, quando for necessário.
Para a existência desta teia é fundamental existir confiança, pois só mantemos laços com quem é possível confiar. Para confiar é necessário identidade, identificação, afinidade e, mais uma vez, auto-estima, pois só quem se crê confiável é capaz de confiar nos outros.
A teia é resultado de encontros, de amarras que dão sustentabilidade. É como uma rede em que todos os nós ou ligações são importantes e vão sendo feitos gradativamente, com paciência, com clareza,com desapego, com solidariedade e objetivo comum.
É resultado de como cada um quer viver: só, voltado para si mesmo, seus interesses particulares ou de forma compartilhada, reconhecendo que ninguém é perfeito, mas é único, digno de respeito e valorização.
Esta opção de vida vale para a vida familiar, como para os relacionamentos sociais e profissionais, não fosse assim não veríamos proliferar as redes de cooperação, as teias de solidariedade e tantas outras organizações sociais que se estruturam buscando uma melhor vivência em sociedade, mais solidária, mais humana.



“O Tempo me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da vida”
Lya Luft

         


SORTE SELADA


Era uma tarde de sol muito quente. Dava uma lerdeza danada no corpo. Só o que andava rápido e solto era o pensamento.Tudo mais parecia se arrastar.Avida... Os dias todos muito iguais, repetidos, arrepiantes de tão chatos. Novidade... Até esquecera o que era uma novidade .
Já nem sabia por onde andava aquela menina moleca que sonhava com uma vida muito diferente daquela. Queria aprender música, tocar em locais distantes dali, brilhar nos saraus, casar com aquele seu professor de piano e com ele ganhar esse mundão de Deus. Aliás, nem sabia se ela existira realmente.Ou se tendo existido já estava morta.
Não tivera escolha, a pobre. Quando percebera o pai já tinha decidido. Fora escolhida para casar com o primo. Coisas de conveniências, manterem patrimônio, essas idéias práticas, lógica de homem pela qual ela nem se interessava muito.
Sua sorte fora selada tal qual dos bois da fazenda. Uns para corte, outros para a lida. Todos marcados, no couro e no destino. Sentia-se igualzinha a eles. Todo dia fazia a mesma coisa.
E os sonhos?Já nem lembrava se os tivera mesmo. Se eram seus.
Olhava-se no espelho e não se reconhecia. Era o fantasma de si mesma. Esse fantasma que a aterrorizava e mostrava que a morte dos sonhos era a morte da alma.
Então... morta ela se sentia...
Sentia-se igual a tudo em sua volta. Propriedade alheia. Sem passado, sem presente, sem alma, sem futuro.
Foi, então, que o alarde das crianças lhe tirou do torpor em que se encontrava.
Não é que algo estava acontecendo lá fora?
E o que se passou diante de seus olhos gelou o sangue em suas veias, embora o calor reinante lá fora.
Não é que Cabiúna, o boi que ganhara o mundo tinha voltado?
Como pudera ter voltado depois de sentir o gosto da liberdade?De viver sem patrão? De pastar em outras pradarias? De estar livre da canga e do relho? 
Será que não sabia mais viver por sua própria conta?Será que precisava que lhe dessem um sentido para sua existência?Será que só tinha vida a serviço do seu dono?
Não tinha vida fora disso?
E o pior estava acontecendo ali. Estavam tirando-lhe o que restava de vida.
Podia o homem ser o Senhor da Vida e da Morte?
Sentiu as lágrimas escorrerem em sua face.
Sentia-se tal qual o boi velho.
Onde estava o sentido de tudo? Na vida? Na morte? Nos dois? Em nenhum dos dois?
Percebeu que o sentido de tudo talvez estivesse nela mesmo. Em reencontrar a vida dentro dela.
Foi preciso um choque para lhe mostrar que tudo dependia dela. No que podia fazer daqui para frente.
Reencontrou o que julgara perdido para sempre.
A esperança...
Não ia esperar para tirarem-lhe o couro também.

        


A VIDA E AS ESTAÇÕES



O sol aparece e levanta meu ânimo. Aquece minha alma e clareia as manhãs de minha vida, tão gélidas durante o inverno.
Gosto do sol como gosto da primavera. Tudo parece mais proporcional, sem exageros, dando a dimensão exata para as coisas. Temo os exageros. Podem causar grandes alegrias como também grandes dores. E estas são mais intensas. Não conseguimos arrancar do peito.
Posso dizer que o outono também é belo. Bom de viver, porém não tem o encanto e o desabrochar da primavera. Esta é mais esperançosa. Prenuncia coisas novas. Induz à renovação.
Já o outono nos dá um sabor meio amargo. É mais nostálgico.
É como me sinto agora, no outono de minha vida. As folhas são como meus cabelos. Não tem mais o vigor de antigamente. A sensação que tenho no outono é que coisas piores acontecerão. Não gosto do frio. Assemelha-se ao meu espírito nos piores dias, quando não consigo antever nada de bom. Tenho a sensação de perda.
O inverno e o verão, embora opostos me dão idéia de juventude. Ambos são plenos, intensos. Vejo neles os exageros da juventude. Inconseqüentes, irresponsáveis. Denotam coisas que podem ser avassaladoras, que podem explodir inesperadamente.
Ao pensar neles revivi meus anos de juventude. Povoados de sonhos, de encantamento e também de incertezas. No verão rememorei a época em que não tinha medo de desnudar o corpo e a alma.
No inverno recordei os momentos em que temerosa dos atos praticados ou na incerteza do futuro me encolhi com medo de enfrentar as agruras da vida.
Acharei um momento em que conseguirei equilibrar isto tudo dentro de mim, sem exageros e sem medo e que me permita apenas viver e ser feliz?

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.10.2009  

  

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