O SAPO E O POETA


Alguns gordos e felizes sapos
Ainda batem longos, longos papos
Nos seus lodosos e felizes charcos
Marcos dessa civilização
Que imuna a emoção,
Que desumana o convívio.

Tanto canto de sereia,
Uma filáucia que se ateia
Nas tribos, nos saraus, à mesa,
Uma bazófia burguesa,
Burgomestres emproados, 
Sabujos entronisados.

Estamos ficando enfermos
Qual um roseiral apétalo,
Qual noite que esqueceu o orvalho,
Órfãos pensamentos, acéfalos,
Na ventura de virtual sermos
Se virosos não tombarmos falhos.

Estamos deixando poluir-se o amor,
Esvaziar-se a ânsia do sonho impossível,
Grassar a epidemia do torpor,
Arder a brenha, esfumar as estrelas,
Sobejar o medo, desalentar a paz,
Fugir a vida ao escondê-la.

Enquanto isso ainda há gordos sapos
Que batem longos, longos papos, 
Que têm a noite, as estrelas, o tempo de amar
Na cumplicidade do silêncio e do luar.
Oh! Trevas, Oh! Bruxas, alerta:
Transformem em sapo este poeta.


Autor : Francisco Simões
Em : Agosto / 2000


VIANDANTE


Viageiro, viandante,
Caminhante em longa estrada
Trouxe a vida até o futuro.
Ponho a pausa na viagem
E na empoeirada bagagem
Ânsias de ter, esperanças de ver:
Abraços ao invés de muros,
O mundo plantado num imenso jardim,
Gestos sem exílios, sem doestos,
Portas que se abrem sem temer,
O livre arbítrio sem cabresto,
O medo, uma lembrança do passado,
Cidadania, uma lição em toda escola,
O doar no amor e não na esmola,
Uma tortura que só aflija na lembrança,
A Paz que não exija súplicas ou custas,
Uma Justiça, se não cega, ao menos justa,
A felicidade sem gaiolas nem papéis,
Um exército de sorrisos sem canhão,
A vida sem muletas nem quartéis,
Sem asas no chão, sem sangue nas mãos.
Entretanto tudo me fala que não.
Resta-me a fuga do ideal, da utopia, do real
O que é fugir de tudo e de mim próprio,
Aceitar o ópio, quem sabe a morte ou a cangalha.
Em verdade jamais fomos todos iguais
Perante nada, exceto na mortalha.
Mas, viageiro, viandante,
Ponho a vida nos meus passos para seguir adiante,
Porém não vou mais parar... nunca mais.



Autor : FRANCISCO SIMÕES
Em : Outubro / 2000.



MEIA-NOITE

Meia-noite, meia-lua,
Meio tom, meia verdade,
Meia paz pela cidade,
Meio trânsito na rua.
Passos meio hesitantes,
Braços meio picados,
Copos meio bebidos,
Corpos meio tombados.
Meio cigarro apagado, 
Meio jornal esquecido,
Meia luz e dois amantes,
Meio-fio, dois assaltantes.
Um calor meio atrevido,
Uma janela meio aberta,
Um corpo meio despido
E uns olhos meio alertas.

Meia-noite, meia hora,
Meia lua, meia volta,
Meio mundo dorme agora,
Meia polícia na escolta.
O morro meio às escuras,
A vida meio assustada,
Silêncio, meio amargura,
Uma paz meio acuada.
Meio banco faz um leito,
Meio jornal, cobertor,
Meio olhar é preconceito,
Meia ajuda é pouco amor.
Tiroteio, meia-paz rompida,
A escuridão meio riscada,
É uma bala inteira perdida
E uma vida inteira apagada.

Meia-noite, meia lua,
Meia rua vermelho manchada.
…………………………………..
Autor : Francisco Simões
Em : Maio / 1995
…………………………………..
(Este poema já ganhou vários primeiros e segundos 
lugares em concursos literários no Brasil.)

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  05.11.2009  

  

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