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Bica do Ipu
Tobias Marques Sampaio
Olho para ti
E caçôo,
Do teu tamanho e atrevimento.
Perpendicular, salta do horizonte,
Travessa,
Sem escadas, sem asas
Cai levitante.
Imagino-te despida,
Longa, barulhenta.
Excitante...
Seu semblante poético permanece
Como um segredo que tenta guardar.
Seda luminosa e esvoaçante
À luz do sol plaina alegremente
Sem se desfigurar.
Por que teima em existir?
Se já te secaram;
Já te cercaram;
Já te ilustraram:
Capas e fotos
Desenhos e traços;
Sempre tu mais natural.
Obediente lava as almas
E no mesmo caminho,
Percorre sem macular
O nome e o sentido:
Elegante queda d’água,
Eterna Bica do Ipu,
Véu de noiva do Ipuçaba...

Meu Torrão
Eu vim ao mundo no Guarani
Meu velho e bom Urubu
Longe de qualquer coisa
Perto da esperança;
Meu Guarani do carrasco,
De mormaço e serração
E a casa pequena detrás da mata,
Dos grandes pés de faveira sombreando
Cactos, cipós e pedras jacaré;
Acolhendo abutres, répteis e seres
minúsculos,
Alguns pau d’arcos finos, ninharés,
Cajueiros doces e azedos;
Todos fincados na areia branca
Com direito a meses de seca,
Sol escaldante e poeira.
Ainda me vejo sentado à sombra da
gameleira
Olhando atento o cavalo a pastar,
Os bois e vacas circulando a procura
do verde,
O capim tão escasso sobre as leiras.
Meu Urubu foi enterrado por
preconceito
E deu vez ao Guarani
Para que eu nascesse guaraniense,
Mas que importa o nome do lugar?
Outrora era tão pequeno, desabitado;
Casas na areia branca, também
pequenas,
Palhas sobre a cobertura e de taipa
estruturadas
Nenhuma lado a lado
Sem igreja sem colégio.
Hoje tem de tudo um bocado
Tem ainda o velho arvoredo compacto,
Embora sempre ameaçado;
O imponente e velho jatobá permanece
Seus irmãos se foram dando vez a casa
grande
Às margens da estrada que parecia
levar a lugar algum;
O riacho estreito, mas colossal,
De pedras gigantes fincadas em seu
leito;
É o rio de muitos nomes, de muitas
histórias:
Rio Canindé, rio do Cândido, rio das
Pedras
Simples passagens ou travessias
E em cada propriedade deste e daquele
era seu nome
Ainda segue ele sem mudar seu curso
Sendo observado pela mangueira antiga;
Tem a passagem apertada do canavial
E os muitos engenhos a engolir cana,
Vomitar garapa produzindo riquezas,
Farturas de velhos senhores e seus
capatazes;
Expelindo fogo e fumaça indo às
nuvens, poluindo, denunciando.
As cruzes das crianças queimadas,
Fora da encruzilhada que nem mete medo
Permanecem ali testemunhando
acontecimentos;
Descidas e subidas sobre pedregulhos
A deslizar sob uma neblina incessante
Desembocando lama, sujeira no rio
guloso;
Carros de boi na estrada
Cantarolando canção sem fim,
Conduzindo as economias do povo forte.
Volto ali de vez em quando,
Pisando na lama do olho d’água da
pitombeira,
Colhendo as frutas silvestres,
Olhando o firmamento avulso,
Recriando fantasias de um passado
distante,
Um mundo só meu.
Não vejo mais meu Guarani de
cinqüenta, sessenta,
Sendo aos poucos transformado:
Pistas velozes de asfalto,
A rede elétrica espalhada,
O telefone público falando com o
mundo,
Até a água pura já é canalizada,
Casas com antenas altas
Diametralmente espaçosas
Vistas distante da colina de pedra,
Morro dos urubus e suas moradas.
As apertadas cacimbas de água salobra,
De capa rosa sobre a lâmina d’água
Já não fornece a água que o povo bebe
Que era colocada na quartinha, no pote
de barro.
Portanto, meu Guarani acordou para o
futuro
Nada ele me prometeu, porém me deu
tudo:
Uma identidade, um senso de liberdade,
Sem o egoísmo dos ratos,
Sem o faro mortífero dos lobos,
Sem a fraqueza dos desagregados,
Com a consistência das rochas,
Vivendo o mundo dos justos,
Contribuindo com a voz amena
Que nunca calou e jamais polemizou ao
léu.
Meu Guarani não precisa de herói,
Muito menos do silêncio,
Precisa de palavras claras
Para sua vida pacata
Continuar atento às injustiças
constantes
E nunca deixar de ser real.
Não tão real quanto o poderoso rei,
Mas confraternizando com a realeza
sublime
Sem a precariedade de antes
E os dissabores da fome e do
preconceito.
Guarani de doutores, de prefeito
Deste poeta de palavras fáceis
De muita gente simples,
De riquezas no solo mais adverso
Coberto de verdes, de hortaliças
Com novas histórias pra contar.
É assim meu Guarani de todos os tempos
De seca e verde, sem ressentimentos,
mas de saudade,
De viver e saber que amar é atar e
reatar.
Tobias Marques Sampaio

Biografia
POESIAS
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