FALANDO DE POESIA
Sergio Souza
Poesia é o estado de espírito
dos que têm a alma leve, o
espírito em devoção com a
realidade dos sonhos; poesia é a
verdade dos que nasceram para
realizar um pedaço do
irrealizável; falar de poesia é
ter um coração partido e uma
alma em devaneio. Sabe bem o
poeta que a realização poética é
o colo da musa encantada; é o
descompromisso com os valores da
sociedade. É uma entrega sem
cobranças; falar da poesia é
viver um instante mágico do
enlevo do coração, esticar as
mãos frias e receber o calor do
próximo; o poeta é o elemento
que não tem passado, presente,
futuro, esqueceu-se de chegar
para saborear a partida; poeta é
o ser que não divisa o sexo, que
não se confunde com o sem nexo;
que uma vez perplexo se perde na
rima e tropeça na verdade.
Ser poeta é encantar o
desiludido, desiludir o
vulnerável concretizar o
abstrato, fazer das palavras
coração e das tripas destinos,
esperar colher maçãs onde só
plantou tempestade, alcançar
mesmo depois da espera, dar três
vivas à esperança mesmo sabendo
que nunca alcança.
Falar de poesia é ser entregue
às bocas do mundo, beijar a vida
pela manhã, flertar com a
saudade à tarde e dormir
profundamente nos braços da
morte à noite. Ser poeta é ser
Pessoa nas pessoas, é desfraldar
bandeiras em Bandeira, é ser
mineiro drummoniando, é ser
desvairado sem ser Mário, amar
uma donzela prostituída
castriniando e esquecer-se de si
mesmo nas redundâncias dos
desvarios dos copos vinicianos.

POR MIM E POR VOCÊ
Sergio Souza
Quis escrever um poema para
falar de você, quis escrever um
verso que não saiu da mente, nem
caiu no papel, não escorregou
pela língua, não conseguiu se
justificar na quadratura das
páginas; quis escrever um poema
para lhe dizer que ontem chorei
de saudade de você, que tudo que
vivemos não desapareceu dentro
de mim, que o que você me disse
não foi o fim, que todas as
vírgulas representam nossos
tropeços, que nem todos os
pontos são nosso final.
Quis, ontem, escrever uma poesia
para você, para falar das nossas
distâncias e da vontade que eu
sinto de você, da necessidade
que é tocar suas mãos e receber
seu beijo na hora qualquer do
dia; escrevo isso não para
parecer uma carta, nem para
parecer uma poesia, não sei mais
se é prosa ou verso, escrevo
para falar do reverso que é
sentir sua ausência, sei lá, ser
indefinido que me corrói as
entranhas, que sobe pelo corpo e
desgoverna a cabeça, não sei se
chorei pelas crianças perdidas
ou se por mim adulto solitário
perdido nas calçadas da vida;
chorei pelo homem-bicho das
latas de lixo, chorei pela sua
indiferença, senhor dos anéis de
Saturno; não sei do ponto nem da
vírgula, esqueci como se rima
amor com coração, como começa o
verbo afagar, como se inspira
uma poesia, quis falar com a
alma pura de quem ama, com o
peito em chama de quem ama, com
o amor com o qual canta a
cotovia, com os olhos, com esses
olhos de quem ama e vê, mas olha
e finge que não viu, e só quem
ama viu estrelas cadentes, como
cristais que caem dos olhos
profundos de quem chora
desprezo, quem ama sabe a dor da
vontade, o gosto da vontade só
quem ama sabe o que é estar
perto e longe ao mesmo tempo,
pois se o pensamento se
aproxima, o corpo se afasta, ter
olho no olho, pois se o destino
separa, o olhar une com
suavidade; chorei por você e por
mim, pois se as mãos se unem, os
lábios não dizem o que querem;
sei lá se isto é poesia ou
covardia, sei lá se isto é poema
ou dilema, sei lá se isto tem
estética ou me perdi no meio de
uma prosa-poética; sei somente
que quero gritar os hinos dos
desatinos, reverter a anatomia e
transformar intestinos em
coração; ficar nu em todas as
presenças..., meu corpo nu...,
teu corpo nu..., a alma nua... ,
desprendida..., leve como o luar
no quadrado da cama..., morrer
de romantismo e gozo em você e
em mim, desfalecer na sujeira da
lama, na incerteza da fama,
quero desvirginar a natureza
nossa,a sua..., a nossa...;
antes que a manhã nasça e
acordemos desse sonho entre
brumas que, tenho certeza,
sonhamos juntos sem a coragem de
acordarmos..., abraçados como um
corpo único, como um pecado
social, como uma salamandra
única que sai da toca na manhã
enevoada; chorei, ontem, pela
letargia do momento, pelo
instante do grito parado no
ar..., na garganta..., pela
indefinição do verbo amar...,
por todas as ondas do mar...,
por esta rima branca, sem
mistério, chorei pelo poeta
analfabeto em rima, chorei ontem
por seu semblante triste...,
triste..., pelo meu olhar
distante..., tão longe... e
triste, por não te encontrar nas
curvas deste caminho,
desencontro na arte do encontro,
pois te perdi no dia em que te
encontrei, chorei pela minha mão
que quando te toca é com a
distância de dois mundos
separados pelas galáxias sem
firmamento, separados pela luz
do fingimento, pela infinitude
do universo, chorei por Claras e
Clarices, e... demais, chorei!
Chorei pela embriagues dos
bêbedos dos calçadões..., pelos
felizes bêbedos dos
calçadões..., esquecidos que
estão das solidariedades, das
afinidades, das solenidade das
saudades, das iniqüidade das
almas..., chorei pelas palmas
dos shows dos palhaços nos
picadeiros, que como eu, poetas
por inteiro, náufragos da
fragata da existência..., chorei
esta mistura de tudo que é este
viver nosso; chorei por ter
cansado de comer os restos, as
migalhas dos banquetes dos bem
sucedidos, de amendoim murcho e
tomar cerveja quente; chorei por
seu perfume, pelo seu cheiro
felino, por seu jeito... suave
com gosto de prazer..., com
mania de pecado.
Quis fazer este poema para
chorar por você, meu desalento,
meu desencanto, meu último
suspiro antes da morte, meu
único abraço depois da
despedida, meu embaraço e
felicidade, minha ferida
resumida, meu alcance fora das
mãos, meu pensamento em vão,
minha doce tristeza, minha
amarga ternura.
Quis fazer estes versos para
gritar aos seus ouvidos que
ainda te espero no destino, na
rua dos preconceitos, longe do
largo dos preceitos, na
confluência da avenida dos
corações partidos, diante da
Igreja de Nossa Senhora das
Lágrimas, quis fazer este poema
para dizer que ainda sou seu ou
sua, que ainda somos nós, misto
de mulher e homem, rios sem
corredeiras que nos cinge a
face, para lembrar a lembrança,
que de nós nunca lembrou, que de
nós sempre fez pouco.
Fiz este poema sem ética, por
você.
Fiz este poema sem estética, por
você.
Fiz esta poesia longe da razão,
por você.
Esquecido que estava do tempo,
dos comedimentos, despacho para
servir de desabafo, lenitivo,
pelas minhas almas perdidas, por
meus sentimentos sofridos, por
mim e por você.
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