|

OFERENDA
Saramar Mendes
da arqueologia da carne,
ofereço-te a vida,
sem dor, sem remorso.
da rosa e sua penugem,
ofereço-te o orvalho.
da fresca boca, e lânguida,
ofereço-te a orla.
vem, na noite,
como o vento,
como o mago e sua flauta,
cálido,
leva meus úmidos véus,
desvenda o abismo do meu dorso.

LEVAR A DOR
Saramar Mendes
À dor, não cabe prisão.
Antes, há que soltá-la, em uivos ou
canto,
em levas pra longe do coração.
Há que confrontá-la com a beleza das
ruas,
com os olhos do moço que passa
e a primavera rolando pela calçada
em perfumada conversa com as pedras.
À dor, abra as portas
e, com seu mais lindo batom e as
pernas nuas,
leve-a em trottoir pelas ruas
sempre um passo além... da dor.
Assim, ao erguer olhar,
por trás de tão linda boca,
ela não reconhecerá.
a angústia que antes habitava
a cordial morada, antes sua.
E irá se perdendo... a dor.
A dor irá se perdendo
nas ruas por onde for,
você e suas pernas nuas.
(para duas ou três poetas que
trancaram a dor)

BIOGRAFIA
POESIAS
|