OFERENDA
Saramar Mendes

da arqueologia da carne,
ofereço-te a vida,
sem dor, sem remorso.
da rosa e sua penugem,
ofereço-te o orvalho.
da fresca boca, e lânguida,
ofereço-te a orla.

vem, na noite,
como o vento,
como o mago e sua flauta,
cálido,
leva meus úmidos véus,
desvenda o abismo do meu dorso.



LEVAR A DOR
Saramar Mendes

À dor, não cabe prisão.
Antes, há que soltá-la, em uivos ou canto,
em levas pra longe do coração.
Há que confrontá-la com a beleza das ruas,
com os olhos do moço que passa
e a primavera rolando pela calçada
em perfumada conversa com as pedras.

À dor, abra as portas
e, com seu mais lindo batom e as pernas nuas,
leve-a em trottoir pelas ruas
sempre um passo além... da dor.
Assim, ao erguer olhar,
por trás de tão linda boca,
ela não reconhecerá.
a angústia que antes habitava
a cordial morada, antes sua.

E irá se perdendo... a dor.
A dor irá se perdendo
nas ruas por onde for,
você e suas pernas nuas.

(para duas ou três poetas que trancaram a dor)

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  15.06.2009  

  

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