OUTONO


Na manhã outonal d´Outubro,
quando acordei, já o sol ia alto.
Não havia pássaros a cantar,
nem os ramos das árvores
de um jardim qualquer,
entravam pela minha janela.

Apenas uma neblina,
diáfana e transparente,
caía dentro de mim.

Vesti-me com esmero,
pus na cara barbeada
umas gotas de perfume
Calvin Klein, 
(do anúncio da paragem
do autocarro setenta e quatro),
como se fosse para ir ver
a minha namorada.

Depois, sentei-me,
displicente e ambíguo.
Comecei a navegar na WEB 
para ver se te encontrava;
e ao fim de alguns cliks,
lá consegui abrir a tua carta. 

Estavas zangada. 
E eu ali fitando o que dizias,
feito um zé ninguém sem jeito;
nem sequer ousava
esboçar uma palavra
que desse por acabado
aquele mal-entendido
de um namoro imperfeito.

Quando de mim esperavas
Palavras de amor,
fora grosseiro.

Enviara-te uma extensa carta
a descrever a minha rua,
como se isso, para nós,
fosse da maior importância. 
Tu estavas cansada,
e esperavas de mim
qualquer meiguice.

Eu ignorei, simplesmente,
o tamanho dos afectos
que em teu coração guardavas,
e escrevi aquela tolice.

Por isso, esta manhã,
que podia ser linda,
a minha alma não exulta;
o dia ficou sombrio,
não pelo Outono,
que prossegue serenamente;
mas pela indiferença,
o falho discernimento
da minha atitude estulta;

P´ la fraca figura que fiz,
Eu me penitencio:
Mea culpa...
Mea maxima culpa.


Fernando Quintais



Oficina de Poeta


Minha querida Maria,
nos versos que hoje fiz,
eu disse quanto te queria:
mas amor sem poesia
foi coisa que nunca quis.

Faço poemas, sonetos,
com alguma sintonia,
ora brancos, ora pretos,
como quer Nosso Senhor.

Sobre a mesa tenho livros,
discos de música, canções,
e tratados mais bisonhos
sobre os quais me debruço,
aconchegando os meus sonhos.

Não faço da noite dia,
para ter inspiração,
mas estudo com afinco
os livros de filosofia
e outros de salmos puros:
leio contos de fadas,
viajo pelas estradas
do mundo da fantasia;
ouço vozes de poetas, 
a murmurar coisas belas, 
e fico alheio do mundo
entregue aos meu devaneios,
sem medo dos esconjuros.


Fernando Quintais



ode à poesia electrónica


Como consegue alguém
pôr em versos,
tão ágeis e tão belos,
os seus mais íntimos afectos,
desejos e anelos?

Como consegues tu,
em tua pura fantasia de poeta,
levantar a minha alma,
desde lodo em que me vejo?

Os teus versos são a imagem
de um mágico espelho,
onde a alma transparece
e o corpo se confunde
em sombras, conjecturais.

Quantas loucuras e beijos
escondem os teus poemas?
Quanta ternura e desejos,
e tudo mais,
ali se encontra oculto,
pronto a explodir como vulcão,
e a espalhar cinzas,
pelo espaço ermo
da minha alma-chão
em que me movo
ao som de vozes e murmúrios:
sussurrantes e doces palavras
que aos meus ouvidos
soam como harmónico
diapasão
e à minha boca afloram
como doce mel.
E tudo isto sem precisares
de uma simples folha de papel.


F. C. Quintais


Com palavras, apenas
Fernando Quintais

 
Um poema espontâneo
nasce na ponta da pena,
sem peias nem razão:
porquê?
 
Apenas porque a alguem
deu na gana
puxar da caneta
e escrever um poema
sem ideias:
com palavras,
apenas!


Quadras numa tira de papel
  Por Fernando Quintais

1
 
Meu coração pequenino,
tem um volume perfeito,
cabe nele o Universo
e a minha alma, com jeito.
 
2
 
Com gosto se faz poemas,
com paciência, seus versos;
com alecrim, alfazemas,
frascos d´aromas diversos.
 
3
 
Com meu lápis e compasso,
neste meu pequeno burgo,
vou criando o meu espaço,
feito homem, demiurgo.
 
4
 
Palavras, versos, poema,
um salto no infinito;
pedra, cinzel, teorema,
faz catedral de granito.
 
5
 
Um germe, um ovo, um abraço,
uma criança nasceu;
girou a Terra no espaço,
um homem sábio morreu.
 
6
 
Criação, Deus, Universos,
livros de filosofia,
tudo cabe em simples versos,
seja Bíblia ou Utopia.
 
7
 
Meu papel chegou ao fim
mas o meu poema não;
sinto coceira de versos
nos dedos da minha mão.
 
8
 
Fui lavar a poesia
que à minha pele se colou,
deitei a água na pia
e a água no mar, cantou.



O PENHOR
(Um Outro Orfeu) 



Tomo a grandeza dos teus deslumbrantes versos
Como o judeu ao Mercador de Veneza:
Embora atento,o juíz, aos desígnios perversos,
Não lhe permitisse no penhor ferrar a presa.
 
Quis eu teus versos, para mim, avaramente,
Sabendo que à partida, sonharam outro destino.
Mas gostando de tê-los por um só momento,
E deles pensar em mim, como de um hino.
 
Cantá-los-ia à minha lira bem temperada
Como Orfeu distante de sua alma gémea,
Ousou descer ao inferno,em tal tontice,
 
Que ali deambulou na treva desgarrada,
Sem encontrar, por desamor, sua Euridice,
Pois em seu coração só cabia a Efigénia. 


Fernando Quintais

SUA POESIA CLIQUE

 

É com profunda dor que recebo este comunicado o falecimento do poeta em 05 de setembro 2007

Fernando Costa Quintais

FONTE  ARCADA

http://fontearcada.no.sapo.pt/

 

 

 

 

 

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  13.10.2008  

  

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