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RONDA
DOS HERÓIS
Heróis que são? sei lá
o que são
heróis
que vivem a tarefa
de estar vivos
e os que vivem incluídos
na tarefa
a significância deriva das coisas
insignificantes
que desmerecem distinção
Nuno Rebocho

A LIBERDADE TEM A MÚSICA POSSÍVEL
esta polonaise de dedos sobre as
teclas
este discurso de música que percorre
o esófago a laringe a uretra
a bater no fundo – se eu traduzisse
diria que os teus olhos não existem
porque o som me agarra para outro
espaço
é um repercutir de graves de onde as
mãos quase fogem tímidas
para repousar um minuto nos teus seios
é uma carícia a rufar liberdades
e choros mudos entre frases que falam
de planícies
tanta tristeza que chopin me confia
e não tenho onde guardá-la
são dedos carregando no marfim do
piano de sala
ritos construídos no ruir dos dias
vamos conversar meu caro chopin
do teu piano da tua polónia da mulher
que eu amo
enquanto as cordas vibram abafadas
pelo pedal
vamos conversar meu caro:
a liberdade tem a música possível
que com as nossas bocas se canta
Nuno Rebocho

BALADA PELA TUA AUSÊNCIA
em memória de J.O. Travanca Rego
tantos são os sons que o sangue sopra
se o silêncio ruge na fornalha das
ausências
e então te resguardaste guerrilheiro
de ternuras e te morreste naquele
tempo
de ser inteiramente o tempo todo: eu
sei
o que vale a água no corpo da planície
onde a voz da vagem madura
sofrimentos. o que mata as éguas
no pasto dos sonetos e vermina
solidões nos esquecimentos. eu sei
ser irmão dos campanários
no raso afago do isolamento
no longe dormiam dúvidas: naquele
tempo
de comboios atrasados
ainda choravam musgos quando a morte
adormecia. guardavas-te para o sol
nos calcários onde o vento se escondia
e os medos bilravam mantos de revolta
como boletas engordadas
eu sei que nunca os olhos dormem –
apenas viajam
pelos recados da vida e assim fizeste.
eu sei
que a chuva dói no candeio das
promessas
até enchermos o regolfo de liberdades.
e tu
vigiavas os caminhos por onde
escorriam
patranhas e não tragavas o veneno.
naquele tempo
soletravas as trevas para o sonho dos
estorninhos
revezam-te agora outras ausências e
outras esperas
como o rio nunca se cansa enquanto
houver nascente.
estas são as lágrimas e os rios e as
forças
de resistir ao suão por ser diferente.
Nuno Rebocho

A BONECA RUSSA
perdem-se aqueles que os deuses amam
desde que os filhos do tempo dominam
geia: a guerra moldou as planuras ao
sopé
das searas lavradas pelos quatro
ventos
As águas escarparam as rochas e as
rochas emudeceram: a crosta vingou-se
sem ternura Nela se baldaram as
memórias
e os corpos das memórias que, cinzas
sendo,
já eram verdes & o início de futuros
Desfilam
os filhos do tempo com os poderes do
tempo
e a terra recebia as feridas Sobre
elas prantava
Dizemos: os deuses amam aqueles que
perdem
e os filhos do tempo dominam a guerra
e os ventos lavram a seara no sopé
Mudas ficam as águas sem ternura
que sobre elas navegam os corpos
das memórias & os futuros dos filhos
do tempo A terra prantava as feridas
Dizemos: os deuses perderam o tempo
e a guerra lavrou a seara A ternura
das águas lavou a memória dos futuros
A terra recebia as feridas E prantava
Dizemos: os deuses perderam a guerra
e a água lavrou as searas de ternura
A terra recebeu a memória E prantava
Dizemos: a água lavou as searas
A terra navegou futuros E ternura
Dizemos: a água lavrou a terra
Nuno Rebocho

Biografia
POESIAS
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