OLHAR NA MADRUGADA
Nilton Bustamante



Madrugada, o brilho se fez
Minha visão vem com a noite.
Eu acreditei no que quis,
Acreditei em ser feliz.
Não me preocupei com as palavras,
engenharia gramatical, somente na
expressão do seu olhar, alma adentro.
O silêncio, voz de minha dor,
há muito moldado no vazio de
minha existência, agora ousa suspirar.
Eu acreditei na promessa de um amor.
Acreditei no brilho de seu olhar.



UCO 4111
Infartei!

Eu havia me esquecido de mim.
Eu havia me esquecido de que pertencia à Mãe Natureza.

O homem em sua modernidade passa acreditar somente naquilo que vê e convive. Só que não percebe que não existe nada mais avançado e tecnológico que o próprio homem, em seu conjunto. E as linhas de concreto formavam meu único horizonte. Não suportava mais a idéia de só acreditar na fluorescência das luzes dos ambientes, no espelho espelho meu -espelho mágico da tela do meu computador-, nos sorrisos treinados às mesas para ser servido de alguns olhares, alguma atenção em bares escolhidos de pessoas indecisas. A angústia da representação social, do consumo egoísta que leva mais dúvida à alma do que certezas, o efêmero é parceiro das conquistas contemporâneas.
Meu coração não agüentou, da mesma forma que a alma.
Infartei!
Diagnóstico: "infarto agudo do miocárdio não especificado".

O infarto é obstrução. Talvez rejeição. Impedimento dos fluxos que deveriam ser naturalmente livres para seguir os cursos designados pela engenharia orgânica. Leva o que resta do coração à morte súbita ou tardia. Clara manifestação da desistência do organismo em continuar na farsa de um modo de ser, sem vínculo com as origens primeiras e transcendentais da vida. Sempre há um medo escondido. Por Deus, depois da parada cardíaca, houve tempo do uso imediato do desfibrilador elétrico. E, desacordado, ali à mercê dos médicos, assistia indeciso uma imagem entre molduras: uma calçada de pessoas, muitas pessoas, indo e vindo, à noite (alguém por certo poderá explicar o que era isso).

Nessa imensurável distância entre o mundo material e o espiritual em que vivemos minha visão de mundo se questiona. Entre os homens deste planeta, as clássicas perguntas "De onde viemos? Para onde iremos? Quem somos?", persistem justamente por pertencermos a um grande grupo de espíritos afins que com o decorrer das visitas em múltiplos campos de realidade de órbitas desenhadas por mãos divinas, em nossas livres escolhas, nossas atenções e intenções, nossos objetos de pesquisa e expressão de vida foram em sentido mais grosseiro, mais material, em campos vibratórios mais condensados. Por falta de uso dos instrumentos de Deus que habitam meu íntimo, de procura de prioridade aos planos mais sutis, eu, também, já havia me esquecido, quem eu mesmo era, de onde vim e para onde irei. Então, após ser prontamente cardiovertido e encaminhado para angioplastia primária, foi colocado o "stent" com sucesso, e demais procedimentos médicos fui levado à enfermaria e, após 48 horas, transferido à Unidade Coronariana, leito 4111.

Adormeço, durmo dentro do sono, sonho dentro de mim, e sou acordado pelo médico, com certa suavidade. Sorriso no olhar, falas mentais, perguntando o que eu sentia. E me corrigindo o que eu distorcia por mania... Disse-me, esse médico em tom professoral que meu coração necessitava de humanidade, mas não essa das cartilhas, e sim, aquelas vindas das essências dos campos de Deus. Perguntou-me se eu já tinha observado e entendido o que são as trilhas dos animais? Trilhas de estrelas? O que elas representam? O que elas ensinam? Afirmou que podemos apreender coisas surpreendentes aos olhos cansados e cristalizados pelo ceticismo. Você, meu caro, necessita desses campos divinos e suas flores, suas estrelas em céu de coração aberto, das observações da engenharia dos rios, dos movimentos da vida mineral, vegetal e animal. Neste mundo hominal terráqueo, "moderno", o centro da opção por certo, infelizmente, ainda não é a vida humana na simplicidade divina, não é o homem, esse mesmo homem que deveria ser não cultuado, mas respeitado e entendido como força da explosão-impulso demonstrado em sua própria formologia. O homem é símbolo, entre todos outros, da representação evolutiva da criação, divina.

Mantendo a simplicidade daqueles que sabem, continuou: Meu irmão, você fará uma terapia, nada de remédio, e sim uma pequena exploração, uma caminhada, observação. Ah, mas essa maneira de observar não é aquela que a sociedade moderna está acostumada, em que espiões, espiam. O ocupado com a vida alheia, espia. Satélites, espiam. Aviões invisíveis, espiam. Fronteiras, espiam. Poderes estatais e privados, espiam. Os muros e cercas, espiam. O chip, espia. Sectarismo, espia. Tudo que espia no sentido de controle-dominador, isola. O que espia com esse sentimento, segrega. E de tanto espiar e ser espiado, sobre onde e como se vive, se é longe, se é perto, se é nobre, se é pobre, o quanto se ganha, o quanto se perde, como se veste, quanto amor se acumula, quantos desconjuram, o quanto se é importante, o quanto se é atual, "in", "clean", "vip", e todos os "plus", somente demonstram a vulnerabilidade da consciência torta. Os homens isolam-se em suas casas, em seus quartos, em seus planos, em suas síndromes e não se dão conta. Diante de tanto concreto, precisam de céu, de estrelas, como já lhe disse... E mais que tudo, precisam desesperadamente de humanidade. Não em busca de emoções feito sedentos aventureiros, mas na busca de se sentirem gente e encontrar o símbolo do plano de Deus: um outro ser humano na expressão primeira, bendita. Você, meu bom irmão, terá que aprender a reencaminhar em sua trilha. Sairemos em peregrinação por lugares com nada de estradas, nada de trilhas visíveis. Na verdade buscaremos trilhas de animais, sejam quais forem, pois, nessas há marcas de sabedoria a apreender – terminou de falar animado. Assim, caminhamos as trilhas dos elefantes, das formigas, nos jogamos nas quedas das cachoeiras, nos largamos nos movimentos das marés, nos abrimos juntos com os botões em flor, nos abrimos ao sol e à noite, nos fechamos diante dos conselhos dos vícios, acompanhamos as forças da atração e coesão das moléculas no reino mineral, a organizarem os diversos e bem ordenados sistemas, traduzindo orientação e equilíbrio; no reino vegetal as manifestações se mostraram mais avançadas, onde a fotossíntese representa expressiva aquisição, onde a molécula orgânica afirma-se e já propiciando elementos construtivos da escola evolutiva dos seres. V oamos pelas trilhas das aves migratórias e mesmo dos rastros das estrelas. Sugeriu-me esse orientador a seccionar parte da visão dos céus, e feito um templo meditar e acompanhar a lógica, a movimentação, as energias, e o pulsar do universo. Alegrou-me que dessa experiência eu teria uma ampla possibilidade de ver o que os meus olhos nunca antes puderam. Estava me preparando para ver uma imagem que sempre estivera nua, à mostra, escancarada, mas que meus olhos estavam cegos, pois não havia aprendido a enxergar, e sim a somente ver. E não mais sentia meu leito na UCO 4111, os aparelhos médicos, e mesmo meu corpo. Estava livre. Indescritível liberdade. Esse médico de almas, diante de minha perplexidade diante da poeira das estrelas, disse-me um pouco mais: As constelações nos ajudam a separar o céu em porções menores. São agrupamentos aparentes de estrelas que os astrônomos da antiguidade imaginaram formas de figuras de pessoas, animais ou objetos... Interligavam uma a uma, como se fossem pequenos pontos dos desenhos das revistas de quebra-cabeça dos dias de hoje. E para mapearem o estrelado visível, assim fizeram. Dessa maneira que conhecemos as constelações de Órion, Taurus, etc. Diante dessa exposição e de meu crescente interesse, pediu-me essa pessoa - que eu já não sabia se era meu médico, poeta, escritor, professor, um amigo querido que minha amnésia dessa reencarnação não mais me permitia a lembrança-, que fizesse o mesmo dos astrônomos antigos, só que com o coração aberto para outras perspectivas, outros entendimentos, outras sensibilidades. Que eu me lembrasse naturalmente de todas as pessoas que eu tomei conhecimento em "toda minha vida". Múltiplas vidas, dos múltiplos reinos, dos múltiplos pais, dos múltiplos filhos, das múltiplas pessoas que amei, das múltiplas pessoas que odiei, todas me ensinaram sempre algo que foi-me acrescentado... Pessoas amigas, pessoas inimigas, que fizeram bem, que fizeram mal, que foram indiferentes, aquelas que eu fiz bem, que fiz mal, que fui indiferente, aquelas que ouvira falar, aquelas que nem sabia que existiam, enfim, todas. E mais, de todos os insetos, de todos os animais, de todas as aves, de todas as águas e suas formas, de todos os minerais, de todos os vegetais, de todos os movimentos, de todos os pensamentos, de todas as oportunidades, de todas as vibrações, de todas as projeções, de todos os sentimentos. Todos importantíssimos, verdadeiros prumos, maços e cinzéis, que me ajudaram na forma-conteúdo do que sou até o momento. Eu deveria pegar cada unidade dessas e interligar a uma estrela. Cada estrela, para mim, passaria a ter uma importância, um significado, minha própria constelação. E, já esgotado diante de tantas experiências, dessas interligações de pontos e estrelas, quando estava quase ao final, esse ser, esse médico, da forma que apareceu, desapareceu. E, por fim, uma emoção que nunca havia sentido, em um colapso do pesquisador diante da descoberta, ao terminar de unir o último ponto, a última estrela, entendi o quanto foram e são significativos, o quanto são parte de meu crescimento evolutivo, a minha constelação que acabara de se formar, me mostrara nitidamente, a face de Deus.

Nilton Bustamante
Novembro-2005
nilton.bustamante@superig.com.br

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  07.06.2009  

  

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